sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Na contramão do mundo
(Texto publicado na Revista Adventista de Agosto / 2011)
Felippe Amorim


Introdução


Fiquei curioso para saber quais as lutas que os jovens cristãos têm enfrentado nesses tempos em que vivemos, então resolvi fazer uma pesquisa rápida sem muito rigor científico entre alguns alunos de uma escola de Ensino Médio. Passei um questionário simples com duas perguntas. A primeira foi: Em quais áreas você tem maior dificuldade de ser fiel a Deus? A segunda pergunta foi: Para você, qual é o maior desafio de um jovem cristão hoje?

As respostas foram muito interessantes. Para a primeira pergunta 64% dos pesquisados responderam que era ouvir somente músicas cristãs, 58% disseram que têm muita dificuldade em ler a Bíblia e orar diariamente. 21% indicaram problemas com a Internet, 26% responderam que têm dificuldade em sempre falar a verdade. Algumas áreas como sexualidade e frequência aos cultos também foram indicadas, dentre outras.

Para a segunda pergunta, tivemos respostas muito significativas também. Permanecer puro, se desligar das coisas mundanas e seguir os dez mandamentos foram algumas das respostas que obtivemos.

Sem dúvida, ser cristão no mundo contemporâneo é um grande desafio e ser um jovem cristão neste contexto é mais desafiador ainda.

Sempre ouvimos que o cristão precisa andar na contramão do mundo. Vamos pensar um pouco sobre o que significa estar na contramão. Estar na contramão não é confortável, é mais fácil ir para onde todos estão indo. A contramão é um lugar perigoso com grandes possibilidades de se machucar. Não é popular estar na contramão, certamente críticas serão ouvidas. Pode haver colisões frontais. Quando andamos na contramão certamente nos encontraremos com aqueles que vêm no sentido contrário. Finalmente é necessária muita coragem para estar nesta posição. Será que Deus realmente quer que andemos na contramão do mundo e soframos tantos constrangimentos?

A contramão: um imperativo bíblico


Em Romanos 12:2 lemos: “E não vos conformeis a este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus.” Não se conformar é não ter a mesma forma, em outras palavras é não estar na mesma direção. Deus requer de cada cristão que ande na contramão deste mundo.

A Bíblia nos apresenta vários exemplos de pessoas que escolheram estar na contramão deste mundo. Gostaria de destacar um deles.

O profeta Daniel foi levado de sua terra natal para a Babilônia quando ainda era jovem, provavelmente aos 18 anos de idade. Aquele lugar era o maior centro cultural e político de sua época. Em Daniel 1:5 lemos: “E o rei lhes determinou a porção diária das iguarias do rei, e do vinho que ele bebia, e que assim fossem alimentados por três anos; para que no fim destes pudessem estar diante do rei.” Há uma palavra que precisamos destacar deste verso, “determinou”. A “mão” do mundo para Daniel naquele momento era comer daquilo que o rei havia posto à mesa. A Bíblia registra qual foi a atitude do jovem profeta: “Resolveu Daniel, firmemente, não contaminar-se com as finas iguarias do rei, nem com o vinho que ele bebia; então pediu ao chefe dos eunucos que lhe permitisse não contaminar-se”(Dn 1:8). Daniel resolveu andar na contramão do mundo.

Se analisarmos este verso perceberemos que não foi uma decisão fácil. Dentre todos os escravos, Daniel estava numa posição privilegiada, pois foi escolhido para estudar na “Universidade da Babilônia”, a melhor do mundo. Ao decidir não estar na “mão do mundo” ele estava arriscando perder a vaga na universidade, perder status social elevado e um bom emprego. A despeito de tudo isso, o profeta dá dois passos importantes que devem ser dados por todo cristão jovem ou adulto. Ele “decide” não se contaminar, mas apenas decidir não é o suficiente, logo após ele vai para a ação, pedir ao chefe dos eunucos. Decisão e ação devem marcar a vida dos cristãos que andam na contramão do mundo.

Deus nunca desampara seus filhos. A atitude de Daniel de andar na contramão do mundo foi recompensada pelo Senhor. Em Daniel 1:15 lemos que por escolher uma dieta diferente dos demais, em dez dias pode perceber-se que ele e seus amigos eram mais robustos que os outros. Depois de três anos de estudos eles foram achados dez vezes mais inteligentes que qualquer outro estudante daquele local (Dn 1:20).

Andar na contramão – A Prática

Aquele episódio pelo qual Daniel e seus três amigos passaram estava diretamente ligado a um importante aspecto do cristianismo, a alimentação. Mas dele podemos retirar um principio útil para qualquer aspecto da vida cristã. Todo cristão precisa andar no caminho de Deus e este é a contramão do mundo.

Na prática funciona assim:

A Mão do mundo diz: sexo livre. A contramão diz: sexo apenas no casamento.

A Mão do mundo diz: pornografia. A contramão diz: pureza da mente.

A Mão do mundo diz: perca tempo com futilidades. A contramão diz: Dedique tempo à Bíblia e oração.

A Mão do mundo diz: desrespeite os pais. A contramão diz: honra teu pai e tua mãe.

A Mão do mundo diz: cole na prova. A contramão diz: tire nota baixa, mas não cole.

A mão do mundo sempre leva à perdição, somente a contramão do mundo pode nos levar ao céu.

Qual o segredo?

É possível que nesse momento alguns estejam pensando: Sei que preciso estar na contramão do mundo, mas não tenho forças, como conseguirei?

Ellen White escreveu sobre Daniel: “O profeta Daniel tinha um caráter notável. Ele foi brilhante exemplo daquilo que os homens podem chegar a ser quando unidos com o Deus da sabedoria” (Santificação, 18). O Salmo 119: 9-11 diz: “Como purificará o jovem o seu caminho? Observando-o de acordo com a tua palavra. De todo o meu coração tenho te buscado; não me deixes desviar dos teus mandamentos. Escondi a tua palavra no meu coração, para não pecar contra ti”.

Não existe fórmula mágica para a fidelidade. Apenas a união com Jesus pode nos dar forças para resistirmos às ondas deste mundo. Somente Cristo pode nos indicar o caminho. “Quando te desviares para a direita ou para a esquerda, os teus ouvidos ouvirão atrás de ti uma palavra, dizendo: este é o caminho, andai por ele” (Is. 30:21). Necessitamos com urgência ter mais intimidade com Deus para ouvirmos sua voz e só então podermos andar na contramão do mundo.



quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Aplica-te à Leitura




até a minha chegada, aplica-te à leitura, à exortação, e ao ensino. (I Tm 4:13)

“Uma mente que se abre para novas ideias nunca mais retorna para o tamanho original” (Albert Einstein). A frase anterior nos passa uma mensagem importante. Nós seríamos muito beneficiados se constantemente entrássemos em contato com novas ideias.

Podemos usar diversos meios para termos acesso às novas ideias, mas, sem dúvida, a prática da leitura é um dos meios mais eficazes. Desenvolver o hábito da leitura é uma recomendação dos educadores para todos os seres humanos que querem se desenvolver intelectualmente.

Um Conselho Divino



Deus, o criador dos seres humanos, tem a total noção do quanto a leitura é benéfica para as pessoas. Ao inspirar Paulo quando este escrevia a Timóteo, Deus tocou neste assunto.

Na primeira carta que escreveu a Timóteo, no capítulo 4: 6 a 16, Paulo apresenta diversos conselhos a um jovem pastor. Mais especificamente, a partir do versículo 12 são apresentadas mensagens à mocidade.

“Não despreze a tua mocidade” é o conselho geral e depois Paulo detalha como o jovem pode não desprezar sua mocidade. Um dos conselhos é “aplica-te à leitura”. É verdade que Paulo estava se referindo especificamente à leitura do Antigo Testamento e essa, sem dúvida, é a mais importante de todas as leituras, em nosso contexto, a leitura das Escrituras Sagradas. No entanto, o conselho do apóstolo pode ser aplicado a um contexto mais amplo.


Um conselho Específico



Todos os cristãos deveriam ser pessoas que tem intimidade com a leitura, afinal, eles têm sua religião baseada em um livro. Muitas pessoas até desenvolveram um hábito de leitura, mas não o aplicaram ao principal livro: a Bíblia.

Ellen White tem alguns conselhos que demonstram a importância de fazer das Sagradas Escrituras a sua principal leitura.

“A Bíblia é o melhor livro do mundo para comunicar cultura intelectual. Seu estudo ativa a mente, robustece a memória e aguça o intelecto mais do que o estudo de quantas matérias abrange a filosofia humana. Os grandes temas que ela apresenta, a digna simplicidade com que esses temas são tratados, a luz derramada sobre os grandes problemas da vida, comunicam força e vigor ao entendimento”. (Obreiros Evangélicos, 100)

Além dos benefícios espirituais, a leitura da Bíblia traz benefícios para o cotidiano prático. A capacidade intelectual do cristão é desenvolvida proporcionalmente ao seu contato com as palavras que foram inspiradas pela mente onisciente.

Deus continua nos aconselhando através de sua mensageira a respeito dos hábitos de leitura: “Quisera dizer aos jovens: Sede cuidadosos quanto à leitura. Enquanto a mente for dirigida na direção errada por leituras impróprias, impossível vos será tornar a verdade de Deus constante objeto de meditação. Se já houve tempo em que o conhecimento das Escrituras fosse mais importante que em qualquer outro, esse tempo é o atual. Apelo aos jovens e idosos: Tornai a Bíblia vosso guia. Aí encontrareis a verdadeira norma de caráter. (Signs of the Times, 19 de maio de 1887).

Não basta lermos, precisamos selecionar com muito critério aquilo que leremos. Há muita literatura no mercado que se propõe a ser cristã, mas está recheada de conceitos que se opõem ao que a Bíblia apresenta, como o espiritismo por exemplo.

Voltamos a reforçar que nossa principal leitura deve ser as Escrituras Sagradas e é ela quem deve nos instruir a respeito das nossas outras leituras. O próprio Paulo estabeleceu um princípio: “Quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai”(Fp 4:8). Ellen White acrescenta: “A Bíblia é nosso guia na segura vereda que leva à vida eterna. Deus inspirou homens para escrever aquilo que nos apresente a verdade, que seja atraente e que, posto em prática, habilitará o recebedor a obter uma força moral igual à das mentes mais altamente educadas. Ampliar-se-á a mente de todos os que fazem da Palavra de Deus o seu estudo. Muito mais do que qualquer outro estudo, sua influência é de molde a aumentar o poder de compreensão e dotar cada faculdade de novo poder. Leva a mente em contato com amplos, enobrecedores princípios da verdade. Traz todo o Céu em íntimo contato com espíritos humanos, comunicando sabedoria e conhecimento e entendimento”. (Mente Caráter e Personalidade. Vl 1, 98). A Palavra de Deus deve ser nosso crivo para a escolha de nossas leituras.

Ampliando o conselho


Se parássemos a discussão do assunto neste ponto estaríamos desprezando outros aspectos importantes do assunto. O cristão não deve restringir-se à leitura da Bíblia.

O Profeta Daniel e seus três amigos são um bom exemplo de pessoas que tinham um profundo conhecimento bíblico, mas não pararam aí. A Bíblia diz que eles estavam classificados entre os “jovens em quem não houvesse defeito algum, de bela aparência, dotados de sabedoria, inteligência e instrução, e que tivessem capacidade para assistirem no palácio do rei; e que lhes ensinasse as letras e a língua dos caldeus”(Dn 1:4). Mas não somente isso, a Bíblia continua os descrevendo assim: “e em toda matéria de sabedoria e discernimento, a respeito da qual lhes perguntou o rei, este os achou dez vezes mais doutos do que todos os magos e encantadores que havia em todo o seu reino” (Daniel 1:20). Estes jovens hebreus se dedicaram também ao estudo de outros temas além dos bíblicos. Assim como os jovens hebreus cativos na Babilônia, devemos nos dedicar aos estudos da ciência, filosofia e outros assuntos que ampliarão nosso conhecimento geral.

É verdade que a vida moderna é muito cheia de compromissos, mas se nos organizarmos e aproveitarmos os pequenos momentos de folga conseguiremos ler muito mais.

Ellen White aconselha: “do justo emprego do tempo depende nosso êxito no conhecimento e cultura mental. A cultura do intelecto não precisa ser tolhida por pobreza, origem humilde ou circunstâncias desfavoráveis, contanto que se aproveitem os momentos. Alguns momentos aqui e outros ali, que poderiam ser dissipados em conversas inúteis; as horas matutinas tantas vezes desperdiçadas no leito; o tempo gasto em viagens de bonde ou trem; ou em espera na estação; os minutos de espera pelas refeições, de espera pelos que são impontuais - se se tivesse um livro à mão, e estes retalhos de tempo fossem empregados estudando, lendo ou meditando, que não poderia ser conseguido! O propósito resoluto, a aplicação persistente e cautelosa economia de tempo, habilitarão os homens para adquirirem conhecimento e disciplina mental que os qualificarão para quase qualquer posição de influência e utilidade”. (Parábolas de Jesus, 344)

O cristão deve ser um exemplo de pessoa aplicada à leitura e aos estudos. Deus promete que nos ajudará a desenvolvermos a nossa capacidade intelectual. Mas Deus não fará por nós aquilo que nós podemos fazer. A nós cabe a tarefa de aceitarmos o conselho de Paulo, aplicarmo-nos à leitura, e Deus fará a parte dele nos aumentando a capacidade mental. Escolhamos bem aquilo que leremos e nos dediquemos cada vez mais a esta prática tão benéfica.



segunda-feira, 25 de julho de 2011


A Pedagogia das Tempestades

Felippe Amorim

Introdução



Deus tem diversas formas de nos ensinar Suas lições. Ele é um professor por excelência e nós somos seus alunos por extrema necessidade. Nesta relação professor-aluno, nós somos muito beneficiados, pois, na verdade, não sabemos nada e precisamos da sabedoria dAquele que sabe de tudo.

A história relatada em Mateus 14: 22-33 nos mostra um dos métodos de Deus para ensinar os seres humanos. Esta história acontece em três cenários distintos: A praia, o mar e o coração dos discípulos. Meditando nela conseguiremos entender como Deus trabalha a sua pedagogia.

A Praia

Logo em seguida obrigou os seus discípulos a entrar no barco, e passar adiante dele para o outro lado, enquanto ele despedia as multidões. Tendo-as despedido, subiu ao monte para orar à parte. Ao anoitecer, estava ali sozinho. (Mt 14: 22-23)
Jesus tinha acabado de realizar o espetacular milagre da multiplicação dos pães e peixes. Aquele evento tinha acendido a esperança daquelas quase dez mil pessoas de que finalmente o messias libertador político havia chegado. Eles tinham esperança de que se tornariam livres dos romanos, que a miséria acabaria e finalmente Israel se tornaria uma poderosa nação que dominaria as outras.

A multidão aclamava Jesus e esse sentimento também era real no coração dos discípulos. Eles também criam em um messias político. Não compreendiam que o reino de Jesus seria espiritual e não terreno.

Os discípulos queriam coroar Jesus naquele momento, Judas era o mais animado. Ele se imaginava tesoureiro do reino que seria estabelecido. As vantagens terrenas estavam diante dos olhos dos discípulos.

Mas Jesus, com sua infinita sabedoria, sabia que se ele fosse coroado seu ministério chegaria ao final precocemente.

Jesus, então, dá uma ordem aos discípulos, manda-os irem embora para o outro lado do mar. Eles não queriam ir, seus planos eram coroar Jesus rei. Para que os discípulos obedecessem à ordem, o Mestre teve que ser duro com eles. A palavra inspirada diz que Ele os obrigou a ir. Em outras traduções diz que eles foram compelidos. A questão é que para que os discípulos fossem para onde Jesus queria, foi necessário que pela primeira vez Jesus falasse de forma dura com eles.

A recusa de Jesus de coroar-se rei causou grandes dúvidas nos discípulos: “Deveriam ser sempre considerados seguidores de um falso profeta? Não haveria Cristo nunca de afirmar Sua autoridade como rei? Por que não havia Ele, que possuía tal poder, de revelar-Se em Seu verdadeiro caráter e tornar-lhes a eles o caminho menos penoso? Por que não salvara João Batista de uma morte violenta? Assim raciocinavam os discípulos, até que trouxeram sobre si mesmos grande treva espiritual. Perguntavam: Poderia ser Jesus um impostor, como afirmavam os fariseus?” (Desejado de Todas as Nações, 380). A primeira tempestade desta história não aconteceu no mar, aconteceu na cabeça dos discípulos. Eles precisavam aprender no que consistia a obra de Cristo. A cabeça dos discípulos estava em tempestade de pensamento.

Sabendo de tudo o que estava acontecendo, Jesus subiu para o monte para orar. Ele orava pela multidão e orava pelos discípulos. Ambos os grupos precisavam compreender a essência do reino de Deus.

O mar


Entrementes, o barco já estava a muitos estádios da terra, açoitado pelas ondas; porque o vento era contrário. Na quarta vigília da noite, foi Jesus ter com eles, andando sobre o mar. Os discípulos, porém, ao vê-lo andando sobre o mar, assustaram-se e disseram: É um fantasma. E gritaram de medo. Jesus, porém, imediatamente lhes falou, dizendo: Tende ânimo; sou eu; não temais. Respondeu-lhe Pedro: Senhor! se és tu, manda-me ir ter contigo sobre as águas. Disse-lhe ele: Vem. Pedro, descendo do barco, e andando sobre as águas, foi ao encontro de Jesus. Mas, sentindo o vento, teve medo; e, começando a submergir, clamou: Senhor, salva-me. Imediatamente estendeu Jesus a mão, segurou-o, e disse-lhe: Homem de pouca fé, por que duvidaste? E logo que subiram para o barco, o vento cessou (Mt 14: 24-32).

Já estava quase escuro quando os discípulos partiram no barco, eles demoraram a cumprir a ordem de Jesus.

Mesmo indo para o lugar onde Jesus havia mandado, eles não estavam isentos de enfrentarem tempestades, pois, “o vento era contrário”. Na vida também enfrentamos tempestades, mesmo quando seguimos o caminho que Jesus nos indicou, pois, existe um inimigo que sopra um vento contrário. O próprio Jesus disse: “No mundo tereis tribulações; mas tende bom ânimo, eu venci o mundo”(Jo. 16:33). A promessa de Jesus é companhia, não ausência de tribulações.

O vento era contrário não somente no mar, mas também no coração dos discípulos. Jesus sabia disso e queria os ensinar uma preciosa lição.

Então Jesus permitiu que a tempestade chegasse aos discípulos, ela seria seu instrumento pedagógico. O tormentoso mar, paradoxalmente, pôde aquietar a tormenta que rugia no coração deles. Do mesmo modo, às vezes nos encontramos no mar das dificuldades, nessas ocasiões Jesus usa a tormenta para nos fazer crescer espiritualmente.

Há algo curioso nesta história. A Bíblia diz que somente “na quarta vigília da noite” Jesus foi socorrê-los. Naqueles tempos a noite era dividida em quatro vigílias de três horas cada uma. Portanto, Jesus foi em direção aos discípulos por volta das três horas da manhã. Ele aparentemente demorou. Os discípulos lutaram contra a tempestade durante cerca de oito horas.

Por que Jesus demorou tanto? A primeira coisa que precisamos saber é que Jesus lá de cima do monte velava pelos discípulos, mesmo chegando apenas na quarta vigília Jesus passou a noite toda os observando e os protegendo. Não fosse isso e o barco teria afundado logo no início da tempestade, porém, Jesus queria deixa-los lutando até que eles entendessem que não poderiam vencer sozinhos.

Lá na praia os doze seguidores de Cristo achavam que eram sábios e poderosos. Achavam que poderiam entronizar a Jesus e não concordaram com o Mestre quando os mandou ir embora. O Senhor queria ensiná-los que eles não podiam nada sozinhos. Esta é uma lição que nós também precisamos aprender. Às vezes Jesus nos deixa lutando em nossas tempestades até que compreendamos que não podemos vencer sozinhos.

Depois de uma noite de luta finalmente acabaram as forças deles. A demora de Jesus fez com que eles percebessem o quanto necessitavam do seu Senhor. Quando eles perceberam que não podiam sozinhos, então Jesus veio. Quão bom seria se nós nos rendêssemos a Jesus logo no início de nossas lutas!

Jesus foi encontrá-los andando sobre o mar. A tempestade ainda estava muito intensa, mas Jesus anda sobre e dentro da tempestade. “Tende bom ânimo” e “não temais”. Estas foram as ordens dadas por Jesus enquanto a tempestade ainda estava forte.

Estas mesmas ordens são dadas a nós. Mesmo no meio das aflições não precisamos ter medo. O segredo estava na frase: “SOU EU”. É a presença de Cristo que garante paz em meio à tempestade.

Neste momento da história se destaca a figura do sempre pronto a falar: Pedro. A frase que ele falou pode traduzir-se também assim: "já que és tu, manda-me ir ter contigo sobre as águas". Pedro não tinha dúvida de quem era o que lhes tinha aparecido. Embora inicialmente os discípulos tenham gritado com medo de um fantasma. Logo identificaram Jesus como aquele que caminhava sobre o mar, de outro modo Pedro nunca se teria atrevido a sair do barco para tentar caminhar sobre as ondas encrespadas pelo vento.

Pedro saiu do barco por fé. A fé o sustentou sobre as águas do mar de Galileia. Mas essa fé só foi ativa enquanto ele manteve os olhos fixos em Jesus.

Nunca precisamos temer enquanto mantemos os olhos em Cristo e confiamos em sua graça e poder. Mas quando nos olhamos a nós mesmos, aos que nos rodeiam, e às dificuldades que nos circundam, temos muitas razões de ter medo.

Ellen White descreve assim aquele momento: “Olhando para Jesus, Pedro caminha firmemente; como satisfeito consigo mesmo, porém, volta-se para os companheiros no barco, desviando os olhos do Salvador. O vento ruge. As ondas encapelam-se, alterosas, e interpõem-se exatamente entre ele e o Mestre; e ele teme. Por um momento, Cristo fica-lhe oculto, e sua fé desfalece. Começa a afundar. Mas ao passo que as ondas prenunciam morte, Pedro ergue os olhos para Jesus e brada: "Senhor, salva-me!. Jesus segura imediatamente a estendida mão, dizendo: "Homem de pequena fé, por que duvidaste?”

A tempestade só cessou completamente quando Jesus entrou no barco. Assim também será em nossa vida, apenas quando o Senhor estiver dentro do nosso barco é que teremos as nossas tempestades espirituais acalmadas.

O Coração



Então os que estavam no barco adoraram-no, dizendo: Verdadeiramente tu és Filho de Deus. (Mt 14:33)

O objetivo de Jesus com tudo isso era alcançar o coração dos discípulos. Este é o terceiro cenário desta história.

Somente depois de enfrentar uma tempestade e de quase perderem a vida é que eles finalmente entenderam o que Jesus queria ensiná-los. Foi nesta ocasião quando os discípulos confessaram pela primeira vez que Jesus era o Filho de Deus e o adoraram na forma em que os homens adoram a Deus.

Jesus queria ensiná-los sobre a verdadeira adoração e usou a tempestade como instrumento de ensino.

Quando Deus permite tempestades em nossa vida ele quer nos ensinar algo. Quer nos ensinar dependência, por exemplo, pois,” os que deixam de compreender sua continua dependência de Deus são vencidos pela tentação” (Desejado de Todas as Nações, 264)

Da próxima vez que enfrentarmos as tempestades da vida não devemos mais perguntar “por que?” mas “para que?”. Se estivermos dentro da tempestade neste momento, oremos da seguinte forma: “Senhor, o que queres me ensinar através deste problema”. Nunca devemos nos esquecer de que Jesus está conosco dentro da tempestade nos prometendo: “Não temas, porque eu te remi; chamei-te pelo teu nome, tu és meu. Quando passares pelas águas, eu serei contigo; quando pelos rios, eles não te submergirão; quando passares pelo fogo, não te queimarás, nem a chama arderá em ti. Porque eu sou o Senhor teu Deus, o Santo de Israel, o teu Salvador” (Isa. 43:1-3). Aprendamos com a pedagogia das tempestades.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Vinícius Mendes de Oliveira
Formando em Teologia pelo SALT -IAENE
Professor de Língua portuguesa no IAENE
Mestrando em Ciência Sociais pela UFRB



A GRATIDÃO É A RESPOSTA


“Então, Jesus lhe perguntou: Não eram dez os que foram curados? Onde estão os nove? Não houve, porventura, quem voltasse para dar glória a Deus, senão este estrangeiro? E disse-lhe: Levanta-te e vai; a tua Fe te salvou.” Lucas 17:17-19

A gratidão é a resposta imediata de uma pessoa que reconhece que recebeu a graça de Deus. A graça vem de Deus. Essa é a parte dEle. A gratidão deve brotar como resposta no coração humano. Essa é a nossa parte. No relato da cura dos dez leprosos, Jesus, usando a recorrente fórmula de declaração de salvação, diz ao leproso agradecido: “a tua fé te salvou.” O interessante é que não foi apenas o samaritano que foi curado da lepra, os outros nove também foram, mas apenas ele foi declarado salvo por Jesus. Apenas ele compreendeu o propósito maior por detrás da cura física que havia recebido.

Isso ensina que a graça de Deus é universal, ou seja, Ele a despeja sobre todos, mas só os que demonstram completa gratidão poderão usufruir da salvação. Ensina também que a obediência que Deus deseja que tenhamos é produto da recepção da graça no coração. Se for motivada por qualquer outra coisa, não pode ser recebida por Deus.

O episódio da cura dos dez leprosos evidencia como pode ser produzida no coração uma fé genuinamente grata pelo dom da salvação oferecido a nós. Deus sempre nos atrai, muitas vezes usando nossas necessidades humanas e exercita nossa fé, provando se de fato confiamos em Sua Palavra. A partir disso, Sua expectativa é que compreendamos o presente da salvação sem o qual não poderíamos viver, e devotemos nossa vida de forma irrestrita ao Senhor, através de uma obediência motivada por amor.

A ISCA

Os dez leprosos, pelas leis de higiene, não podiam se aproximar de ninguém. Respeitando essas leis, eles se dirigem a Jesus, à distância, imaginando que Cristo fosse um ser humano como os outros, passível de contaminação. Eles gritam em busca de misericórdia, imaginando, quem sabe, que Cristo pudesse curá-los fisicamente ou amenizar seu sofrimento. A postura deles, no entanto, é bem diferente de um leproso que se aproximou de Jesus o suficiente para ser tocado pelo Senhor. Esse indivíduo reconhecia a Cristo como Messias e exerceu uma fé genuína. Mas os dez leprosos ficaram de longe com medo de contaminar Jesus com sua lepra.

O pecado é exatamente assim, afasta as pessoas de Deus. No lamaçal do pecado, muitos são levados a crer, por Satanás, que não são dignos de se aproximar de Jesus. Assim o inimigo tem vitória. Mas, quando uma alma vacilante, mesmo distante, considerando-se indigna, clama a Jesus, não fica sem resposta do Mestre.

Essa distância de Cristo também pode simbolizar os motivos errados que nos levam a buscar a Jesus. Alguém que se relacione com Cristo apenas por conta das contingências humanas, não conseguirá chegar próximo do salvador para vê-lO de perto, experimentá-lO e vivenciar todas as maravilhas da presença de Cristo. Ficam, à distância, gritando por uma migalha de Sua misericórdia, quando poderiam se aproximar, com fé, reconhecendo que a sua oferta é muito maior do que nós queremos inicialmente. Ficam esperneando pelos desejos de um coração não regenerado, quando o que Cristo pode oferecer é a real necessidade que possuem, mas não conseguem enxergar. Não é esse tipo de relacionamento que Deus deseja ter conosco. Ele quer que nós nos aprofundemos em Sua vida, que O contemplemos bem de perto e sejamos salvos, que prossigamos em conhecê-lO. Mas uma busca baseada apenas nas superficialidades da vida, por mais que sejam coisas importantes e reais (como a lepra daqueles dez, ou as suas dívidas e desilusões amorosas, por exemplo) jamais dará ao ser humano aquilo que Deus deseja muito oferecer: a salvação.


O EXERCÍCIO DA FÉ


Essa busca egoísta, no entanto, não é desconsiderada por Deus. O verso 14 diz que quando Cristo ouviu aqueles gritos, à distância, respondeu, dizendo a eles que podiam se mostrar aos sacerdotes, que atuavam também como uma espécie de ficais da vigilância sanitária, verificando se alguém que se dizia curado, realmente, estava.

O fato é que quando Jesus pediu para aquele grupo ir aos sacerdotes eles ainda eram leprosos. A estratégia de Cristo, com isso, era estimular a fé daqueles homens. O Senhor desejava ensinar que, quando pedimos algo a Deus que está prometido em Sua palavra devemos ter a certeza de Sua resposta. O Senhor não aprecia pessoas duvidosas que vivem em busca de sinais para que possam crer. A Palavra de Cristo deve ser suficiente para nós. A fé vê o invisível, ouve o inaudível e apalpa o intangível. A fé é obedecer a Deus, mesmo que isso pareça estranho. É por isso que aqueles que andam pela fé estão na contramão do mundo. Seria uma situação ridícula para aqueles indivíduos mostrarem-se para os sacerdotes estando ainda leprosos. Mas o texto diz que eles foram e, na ida, foram curados.

Essa situação torna clara nossa necessidade de confiarmos irrestritamente na Palavra de Deus. Todos estamos doentes com a lepra do pecado e, de uma forma ou de outra, muitas vezes clamamos para que Deus nos limpe desses pecados, mas a impressão que temos, às vezes, é a de que não somos ouvidos. Os pecados são recorrentes é parece que nunca vamos vencê-los. As promessas da nova Aliança dão conta de que nós seremos vencedores e que a Lei de Deus estará em nossos corações, produzindo uma obediência completa a Deus. Esse é o tempo em que devemos reclamar insistentemente essas promessas e nos apropriarmos delas. Devemos, a exemplo dos dez leprosos, agir com base nessas promessas. Não podemos duvidar de Deus, pois Ele já proveu todos os meios para nossa redenção: Seu precioso sangue na Cruz e Seu Espírito regenerador.


O VERDADEIRO PRESENTE


Com a cura da lepra, Jesus queria levar os dez leprosos a entender a necessidade que tinham de salvação. Mas apenas um deles, o samaritano, compreendeu isso. Todos os dez haviam sido objeto da graça de Cristo, mas apenas ele se apropriou dela. O detalhe é que a graça de Deus não era o milagre da cura. Isso era apenas a isca para que aquelas mentes concretas pudessem ser encaminhadas para o Reino espiritual de Deus. No entanto, infelizmente, como os nove leprosos, a maioria das pessoas se contenta com as benesses materiais providas pelo evangelho, sem considerar que estas são iscas para atraí-los a um relacionamento íntimo com o Salvador.

Mas um rompeu a barreira do natural e manifestou fé, uma fé que alcançou a graça de Deus. O presente estava nas mãos de Cristo sendo oferecido para todos, mas apenas esse leproso samaritano teve o braço da fé para agarrá-lo. O verso 15 diz que ele voltou. Nem se menciona que ele tenha ido aos sacerdotes, ao que tudo indica quando ele percebeu que a mancha da lepra tinha saído de sua vida, deu meia volta, correu para onde Jesus estava e passou a glorificar a Deus em alta voz.

Esse é o resultado natural de uma vida que se apropria da graça de Cristo: um espetáculo de louvor a Deus. Ninguém cala uma pessoa salva por Jesus. O mundo percebe a diferença. Ele emite altos louvores ao seu Senhor. Ele se prostra, reconhecendo o senhorio de Cristo na vida e agradece.

Esse é a conceito-chave desse texto: gratidão. A gratidão é a resposta natural que alguém emite em relação ao recebimento da graça de Deus. Ser grato é reconhecer que o que foi recebido é imerecido. Com relação ao presente da salvação é entender que, se não fosse por Cristo, estaríamos perdidos, e que Jesus salvou a nossa vida. Então, a gratidão diz: “Deus, eu estou aqui, com tudo o que sou. Não mereço estar aqui, mas o Senhor me salvou, por isso me entrego completamente, sem reservas”. Isso é gratidão. Gratidão não é a hipocrisia das palavras. Gratidão é uma completa obediência a Cristo já que Ele pagou o preço pelo qual nós fomos salvos e, por isso, é o nosso Senhor. Uma pessoa realmente grata pelo presente da salvação que recebeu devotará sua vida a Deus em completa obediência e esta não lhe parecerá pesada. Não ficará questionando as ordens divinas, tentando relativizá-las, mas se subordinará inteiramente a Deus e perguntará ainda o que poderá fazer em resposta a esse amor tão grande e imerecido. Perguntará e responderá como o salmista: “Que darei ao Senhor por todos os Seus benefícios? Tomarei o cálice da salvação e invocarei o nome do Senhor. Cumprirei os meus votos ao Senhor, na presença de todo o Seu povo.”

O detalhe é que esse leproso que expressou gratidão era samaritano. Talvez isso ajude a explicar sua atitude. Os outros nove talvez por serem judeus imaginassem que eram dignos da cura e que a única dificuldade que tinham na vida era lepra, resolvido isso estavam muito bem. Mas o samaritano entendeu que sua necessidade era muito maior do que a cura. Ele precisava de salvação. A atitude dos nove fechou-lhes o céu. A atitude do samaritano fez dele um salvo.

A oferta graciosa de Cristo é para todos, mas apenas aqueles que com fé se aproximam de Deus serão salvos. Muitos se contentam com um relacionamento superficial com Jesus, desejando apenas bênçãos materiais. Entretanto a salvação só pode ser acessada por pessoas que com fé se dirigem a Deus e entregam plenamente sua vida em gratidão irrestrita.

quarta-feira, 13 de julho de 2011


José: Forte ou Fraco?

Felippe Amorim




INTRODUÇÃO



O perdão ilimitado de Deus é uma das grandes e maravilhosas mensagens da Bíblia. Há perdão para qualquer pecado, desde que confessado e abandonado. Essa é uma verdade confortadora para nós, seres humanos falhos.

Infelizmente, algumas pessoas deturpam as verdades bíblicas e fazem do perdão de Deus uma autorização para viverem no pecado. Alguns chegam ao cúmulo de “programarem” o pecado e também o pedido de perdão. Não é assim que deve ser a vida do cristão.

O pecado na vida do cristão deve ser um acidente e não uma constante. Assim João expôs este assunto: “Meus filhinhos, estas coisas vos escrevo, para que não pequeis; mas, se alguém pecar, temos um Advogado para com o Pai, Jesus Cristo, o justo” (1 Jo. 2:1). O ideal da vida cristã é não pecar, o perdão é a solução de Deus para quando não conseguirmos atingir este ideal.

Deus deixou em Sua palavra princípios que, se seguidos, podem nos fazer mais resistentes ao pecado. A vida de José é, sem dúvida, uma rica fonte dos princípios divinos para este assunto.

Um dos episódios mais significativos da vida deste patriarca foi relatado na Bíblia da seguinte forma: “José foi levado ao Egito; e Potifar, oficial de Faraó, capitão da guarda, egípcio, comprou-o da mão dos ismaelitas que o haviam levado para lá. Mas o Senhor era com José, e ele tornou-se próspero; e estava na casa do seu senhor, o egípcio. E viu o seu senhor que Deus era com ele, e que fazia prosperar em sua mão tudo quanto ele empreendia. Assim José achou graça aos olhos dele, e o servia; de modo que o fez mordomo da sua casa, e entregou na sua mão tudo o que tinha. Desde que o pôs como mordomo sobre a sua casa e sobre todos os seus bens, o Senhor abençoou a casa do egípcio por amor de José; e a bênção do Senhor estava sobre tudo o que tinha, tanto na casa como no campo. Potifar deixou tudo na mão de José, de maneira que nada sabia do que estava com ele, a não ser do pão que comia. Ora, José era formoso de porte e de semblante. E aconteceu depois destas coisas que a mulher do seu senhor pôs os olhos em José, e lhe disse: Deita-te comigo. Mas ele recusou, e disse à mulher do seu senhor: Eis que o meu senhor não sabe o que está comigo na sua casa, e entregou em minha mão tudo o que tem; ele não é maior do que eu nesta casa; e nenhuma coisa me vedou, senão a ti, porquanto és sua mulher. Como, pois, posso eu cometer este grande mal, e pecar contra Deus? Entretanto, ela instava com José dia após dia; ele, porém, não lhe dava ouvidos, para se deitar com ela, ou estar com ela. Mas sucedeu, certo dia, que entrou na casa para fazer o seu serviço; e nenhum dos homens da casa estava lá dentro. Então ela, pegando-o pela capa, lhe disse: Deita-te comigo! Mas ele, deixando a capa na mão dela, fugiu, escapando para fora” (Gn. 39: 1 – 12).

Uma rasteira da vida

José era o filho preferido de Jacó, nascido de sua esposa amada o pai dava uma atenção especial para ele. Por exemplo, certa vez Jacó fez uma capa especial e a deu a José, o que provocou muito ciúme em seus irmãos.

Mas na vida de José aconteceu algo que é comum entre os seres humanos. Ele estava em um lugar confortável, tinha toda a atenção que poderia ter, morava em segurança com seus pais, mas a vida deu uma rasteira nele, de filho preferido de Jacó ele passou a ser um escravo no Egito.

As vezes acontece isso em nossa vida. Temos um emprego estável, uma família feliz, uma boa saúde, mas de repente uma dessas coisas ou todas elas nos são tiradas pelas circunstâncias da vida. José passou por isso. Em um espaço de dias, ele saiu da casa do pai para a casa dos escravos, passou da condição de livre para cativo, saiu de sua terra para um lugar distante e desconhecido.

Hoje nós sabemos que Deus tinha um plano a executar através de toda esta tragédia que acontecia na vida de José, mas certamente enquanto ele vivia aqueles momentos muitas dúvidas pairavam em sua cabeça e ele se sentiu golpeado pela vida.

A ASCENSÃO


Apesar de toda a angustia pela qual passava a Bíblia diz que “O Senhor era com José”. Aí está o segredo desse jovem que naquele momento tinha aproximadamente 18 anos. Não importa o quão difícil é a situação pela qual passamos, o que importa é com quem passamos por este situação. Quem está com o Senhor tem paz na tempestade.

É interessante observarmos uma coisa. A Bíblia começa descrevendo José por sua condição interior. Estar com o Senhor é essencialmente uma condição interna.

A Igreja Adventista tem falado ultimamente muito sobre reavivamento e reforma. São duas necessidades urgentes dos cristãos modernos. Mas esta sequência precisa ser respeitada. Primeiro a comunhão com Deus deve acontecer para que depois as reformas possam ser realizadas. Reforma sem reavivamento vai gerar legalismo. Reavivamento sem reforma é apenas “fogo de palha”.

Na vida de José vemos claramente o processo correto acontecendo. Após a Bíblia descrever a situação interna dele, passa a descrever a parte exterior do jovem. O versículo seguinte começa dizendo: “Vendo Potifar que o Senhor era com José”.

Aqui percebemos claramente a situação interior sendo retratada no exterior. José não forçava uma aparência de cristianismo. A comunhão que ele tinha com Deus era facilmente percebida por quem o observava.

É útil que pensemos um pouco em quem viu que o Senhor era com José. Potifar era um pagão, certamente idólatra, pois era um egípcio. Não tinha o temor do verdadeiro Deus, mas até um pagão percebeu que aquele jovem era diferente. Dentre todos os escravos, José se destacava moralmente e quando Potifar precisou de alguém de confiança para administrar sua casa, foi o jovem diferente que ele buscou.

Por mais que o mundo critique o cristão, sempre que precisam de pessoas confiáveis os procuram. Portanto, não devemos ter vergonha ou medo de sermos diferentes. Os jovens devem mostrar a diferença de ter Cristo na vida ao estudarem, trabalharem, namorarem ou fazerem qualquer outra atividade. As pessoas devem “ver” Cristo em nós.

Precisamos lembrar que para aqueles que não conhecem a Cristo, nós somos “Cristo”. Que tipo de “Cristo” temos sido? O que as pessoas estão vendo em nós? Quando andamos na nossa vizinhança, na faculdade, no trabalho, o que as pessoas dizem ao nosso respeito?

José ascendeu no trabalho, virou mordomo de Potifar, porque nele se via a Cristo. Deus abençoou Potifar por causa de José. Deus abençoou um ímpio por causa de um jovem justo.


A Prova



A Bíblia diz que José era “Formoso de porte e de aparência”. Todo o período de escravidão não retirou de José o porte de um filho de Deus. Não devemos permitir que as pancadas que levamos da vida nos façam perder a noção de quem somos. Somos príncipes, filhos do Rei do universo.

Todos perceberam que José era um jovem especial, inclusive a esposa de Potifar. Ela começou a encher a cabeça do jovem fiel de propostas indecentes de adultério e fornicação. Satanás lançou sobre José uma tentação que tem levado muitos jovens cristãos a se afastarem de Deus: a sexualidade ilícita. O relato inspirado diz que todos os dias ela o importunava.

José era exatamente como qualquer outro jovem saudável. Possuía todos os hormônios e desejos que qualquer rapaz normal possui, fisicamente ele era igual a todos, mas espiritualmente tinha qualidades que o tornavam especial. A resposta de José nos dá uma pista de quem ele era: “Mas ele recusou, e disse à mulher do seu senhor: Eis que o meu senhor não sabe o que está comigo na sua casa, e entregou em minha mão tudo o que tem; ele não é maior do que eu nesta casa; e nenhuma coisa me vedou, senão a ti, porquanto és sua mulher. Como, pois, posso eu cometer este grande mal, e pecar contra Deus?” (Gn. 39: 8-9).

Aquela era uma decisão que definiria toda a vida futura dele. Se observarmos bem a resposta, perceberemos que a preocupação de José não estava em não desagradar homens, ele preocupava-se de verdade em não desagradar a Deus. Assim deve ser a vida de cada cristão. Em todas as nossas decisões devemos ter a preocupação de agradar primeiramente a Deus e, se possível, agradarmos também aos homens.

José possuía outra coisa que nos seria muito útil: a noção perene da presença de Deus. “Se acalentássemos uma impressão habitual de que Deus vê e ouve tudo que fazemos e dizemos, e conserva um registro fiel de nossas palavras e ações, e de que devemos deparar tudo isto, teríamos receio de pecar” ( Patriarcas e Profetas, pág. 217).

Quão bom seria se ao resistirmos à tentação pela primeira vez ela nos abandonasse, mas a tentação insiste, e a mulher insistia com José todos os dias. Um dia ela o agarrou arrancou sua roupa e ele fugiu, saiu correndo da presença da mulher.

José era fraco ou forte? Ele era fraco e tinha total noção de sua fraqueza. Sabia que se ficasse mais alguns momentos ali corria o sério risco de cair. Nós também precisamos ter a consciência de que somos muito fracos em relação ao pecado. Dessa forma faremos o possível para sempre andar longe dele e apegados ao único que tem força contra a tentação: Jesus cristo.

Preciosas Lições


Todos os dias somos tentados como José. Talvez não com a mesma modalidade de tentação, mas certamente com a mesma intensidade. O inimigo não desiste de nos vencer. Constantemente inventa novos métodos para nos derrubar. Fabrica tentações personalizadas com as quais tenta nos tirar dos braços de Jesus.

Sempre me perguntava por que a história da vida de José começava a ser contada no capítulo 37 de gênesis era interrompida pela história de Judá e Tamar no capítulo 38 e era retomada no capítulo 39. Se formos atentos, perceberemos que no capítulo 38 temos uma história de um homem que foi derrotado espiritualmente pelo pecado sexual e no capítulo 39 temos a vitória de um jovem sobre o mesmo tipo de pecado. Deus queria estabelecer uma comparação entre as duas histórias.

Judá não tinha algo que abundava na vida de José: comunhão com Deus. Na frase “O Senhor era com José” estão contidas as bases da força espiritual dele. Estudo da Bíblia e oração. É somente assim que o Senhor pode ser conosco. Não existe mágica para nos aproximarmos de Deus. É caminhando com Ele cada dia, tendo momentos de íntima comunhão que conseguiremos ter a força que estava em José. Deus quer nos dar as vitórias que deu aos heróis da fé, porém há uma parte que cabe a nós. Este é o momento de nos aproximarmos de Deus e sermos fortes em Seu nome.

quinta-feira, 7 de julho de 2011


Quem Morará no Céu?

Felippe Amorim


Introdução:


A hospitalidade é uma característica do cristão. Receber pessoas em casa geralmente é algo muito prazeroso, principalmente quando recebemos pessoas que amamos.

Infelizmente, no mundo em que vivemos não podemos abrir a porta de nossa casa indiscriminadamente. Há muita violência e isso nos deixa receosos quanto a quem irá frequentar nossa casa.

Sem dúvida, fazemos uma seleção de quem convidamos para estar conosco em casa. Que tipo de pessoa você convidaria para passar uns dias em sua casa? Que tipo de pessoa você convidaria para morar em sua casa?

Deus é o grande exemplo de hospitalidade. Mas, apesar disso, ele seleciona seus hóspedes. Deus tem uma casa temporária neste planeta, é a Sua igreja. Para esta casa Deus convida a todos. O maior pecador ou a mais inocente criança são convidados a frequentar a igreja. Mas dentro de algum tempo Deus nos levará para uma casa definitiva, que já está construída no céu. Para esta casa, Deus também convida a todos, mas não levará qualquer um. Ele fará uma seleção. O direito à entrada já foi garantido por Jesus na cruz, mas algumas características serão peculiares àqueles que desfrutarão da graça de estarem nas mansões celestiais. O salmo 15 nos diz quem morará com Jesus no céu. Neste salmo existem onze características dos que desfrutarão da eterna presença física de Jesus.


Deus é o anfitrião


Antes de apresentarmos as características dos cidadãos do céu apresentadas no Salmo 15, precisamos pensar em algumas questões importantes. A primeira coisa que necessitamos entender é que Deus é o anfitrião no céu. Como anfitrião, Ele tem todo o direito de estabelecer parâmetros para quem entrará em Sua casa. Deus é quem determina que tipo de hóspede quer receber.

Alguns creem na teoria universalista de que a morte de Jesus levará todas as pessoas, indiscriminadamente, para o céu. Mas não é isso o que a Bíblia apresenta. Percebemos claramente nas escrituras que no final dos tempos haverá um grupo de salvos e um grupo de perdidos. O pensamento de que “Deus é amor e por isso salvará a todos” não é bíblico. Deus salvará a todos que o aceitaram como Salvador e Senhor de sua vida. Aceitar Jesus como Salvador significa que entendemos que seu sacrifício foi suficiente para nos salvar do pecado e nos conduzir à vida eterna. Aceitá-lo como Senhor é submeter-se aos seus mandamentos. Todos os que morarão no céu, aceitaram, de acordo com a luz que tinham, as ordenanças de Deus em sua vida.

Outro aspecto importante que devemos entender é que precisamos ter um relacionamento com a pessoa que convidamos para morar em nossa casa. Deus só convidará para morar em Sua casa pessoas com as quais Ele tem um relacionamento. Não existe cristianismo sem relacionamento com Jesus Cristo.

As Características dos cidadãos do céu


O salmo 15 começa com uma pergunta importante: Quem, Senhor, habitará no teu tabernáculo? quem morará no teu santo monte? (Sl. 15:1). Sem dúvida essa é uma pergunta importante para o cristão e sua resposta é essencial para o destino eterno da cada um. Na sequência do texto encontramos 11 características que analisaremos brevemente a seguir.

Integridade

A primeira característica dos cidadãos do céu que o Salmo 15 nos apresenta é a integridade. Segundo o dicionário ser íntegro é ser "completo", "inteiro", "sem defeito".

Deus ordenou a Abraão, um dos personagens ideais do Antigo Testamento, que fosse íntegro (Gn. 17: l). Nós sabemos que a vida deste homem não foi uma vida perfeita, impecável. Abraão cometeu erros.

Portanto, do ponto de vista bíblico, ser íntegro não é viver em ausência de pecado. É estar completamente submisso à vontade de Deus. Ser integro é estar sempre submetido a Jesus.

O cristão íntegro entende que Deus não quer apenas uma parte de sua vida, Ele a quer completamente. Infelizmente há pessoas que se entregam parcialmente a Jesus. Reservam sua alimentação, suas músicas ou outras coisas para que elas mesmas tomem conta. Não é assim que o cidadão do céu faz, ele se entrega inteiramente a Deus e deixa com que Deus determine por onde ele anda, o que ele ouve, o que ele bebe, compra, ou seja, entrega-se integralmente a Jesus.

Pratica a Justiça

Para entendermos o que significa praticar a justiça podemos apelar para o que o apóstolo João escreveu em 1 João 3: 6- 10: “Todo o que permanece nele não vive pecando; todo o que vive pecando não o viu nem o conhece. Filhinhos, ninguém vos engane; quem pratica a justiça é justo, assim como ele é justo; quem comete pecado é do Diabo; porque o Diabo peca desde o princípio. Para isto o Filho de Deus se manifestou: para destruir as obras do Diabo. Aquele que é nascido de Deus não peca habitualmente; porque a semente de Deus permanece nele, e não pode continuar no pecado, porque é nascido de Deus. Nisto são manifestos os filhos de Deus, e os filhos do Diabo: quem não pratica a justiça não é de Deus, nem o que não ama a seu irmão”.

Praticar a justiça é não viver no pecado voluntário. O pecado na vida do cristão deve ser apenas um acidente. Deus deixou em Sua palavra a Sua vontade revelada. Pecado é ir contra esta palavra.

Devemos seguir o que Deus determina mesmo que não seja o que nós queremos, pois a vontade de Deus sempre é melhor que a nossa.

Fala a verdade de coração.


Esta é sem dúvida uma característica desafiadora. Vivemos em uma época na qual a mentira está generalizada. Nesta sociedade os fins justificam os meios, mentir não importa muito, contanto que se leve alguma vantagem, essa é a filosofia da nossa sociedade.

O cidadão do céu preza pela verdade. Sua palavra é como Jesus determinou: “Seja, porém, o vosso falar: Sim, sim; não, não; pois o que passa daí, vem do Maligno”(Mt 5:37). O verdadeiro cristão é totalmente sincero, não trabalha com “meia-verdade”.

Ele fala a verdade de coração, ou seja, suas palavras verdadeiras derivam de um coração que está em harmonia com o criador. O cidadão do céu cuida do seu coração, seguindo a recomendação de Salomão: “Guarda com toda a diligência o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida”(Pv. 4:23)

As três primeiras características apresentadas pelo salmo 15 são internas. Deus tem uma mensagem com isso. Primeiro devemos cuidar das nossas questões internas. No movimento de reavivamento e reforma, esta sequência precisa ser respeitada. Reforma sem reavivamento prévio gera legalismo. O que importa não são formas nem cerimônias, senão o caráter que se manifesta nas ações nobres.

Não difama

O cidadão do céu não lança palavras mentirosas contra seu irmão. Falar mal do próximo, mesmo contra uma pessoa má, não é uma característica de um cristão. Mesmo ouvir a difamação já é participar deste pecado.

“Quando damos ouvidos a uma difamação contra nosso irmão, somos responsáveis pela mesma. [...] Devemos esforçar-nos por pensar bem de todos os homens, especialmente de nossos irmãos, até que sejamos forçados a pensar de outro modo. Não devemos ter pressa em acreditar em relatórios maus. Eles são muitas vezes resultado de inveja ou mal-entendidos, ou podem proceder de exageros ou de uma exposição de fatos tendenciosa. O ciúme e a suspeita, uma vez se lhes tendo dado lugar, espalhar-se-ão aos quatro ventos, como as sementes de cardo. Se um irmão se desvia, é então ocasião de nele mostrardes vosso real interesse. Ide ter com ele bondosamente, orai com ele e por ele, lembrados do preço infinito que Cristo pagou por sua redenção. Deste modo podereis salvar da morte uma alma e cobrir multidão de pecados.” (Conselho Sobre Educação. 88,89)

Obreiros fervorosos não têm tempo para demorar-se nos defeitos alheios. Contemplam o Salvador, e contemplando-O transformam-se em Sua semelhança. Ele é Aquele cujo exemplo devemos seguir na formação do nosso caráter. Em Sua vida na Terra Ele revelou claramente a natureza divina. (Testemunhos Seletos v. 3, 230)


Não faz mal ao semelhante


Na vida de um cidadão que morará no céu o fazer o bem é uma ação constante. Sua preocupação constante é como ajudar ao semelhante. Uma pergunta importante é “quem é meu semelhante?”

Jesus respondeu a esta pergunta com a parábola do Bom Samaritano, segundo esta história, o nosso semelhante são todas as pessoas que estão próximas de nós e são necessitadas de ajuda.

A partir deste princípio o cidadão do céu é alguém que faz bem a TODOS, sem exceção.


Não lança calúnia


O cidadão do céu vive segundo a regra de ouro: “Portanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós a eles; porque esta é a lei e os profetas” (Mat. 7: 12).

“Quando alguém chega a vós com uma história acerca de vosso semelhante, deveis recusar-vos a ouvi-la. Deveis dizer-lhe: "Falaste com a pessoa interessada a esse respeito?"... Dizei-lhe que ele deve obedecer a regra bíblica, e ir primeiro a seu irmão, e dizer-lhe em particular sua falta, e com amor. Caso os conselhos de Deus fossem seguidos, cerrar-se-iam os diques à maledicência”. (Review and Herald, 28 de agosto de 1888.)

“Os pastores e leigos desagradam a Deus, permitindo a indivíduos falar-lhes acerca dos erros e defeitos de seus irmãos. Não deveriam atender a essas informações, mas sim inquirir: Acaso fizeste como manda o Salvador? Foste ter com o teu ofensor, advertindo-o de suas faltas entre ti e ele só? E recusou ouvir-te? Tomaste contigo, depois de orar sobre o caso, duas ou três testemunhas, buscando convencê-lo com ternura, humildade e mansidão, e com o coração palpitante de simpatia por ele?” (Testemunhos Seletos v. 2, 260)
Rejeita o desprezível


Essa é uma expressão muito interessante. Rejeitar o desprezível significa se afastar de coisas proibidas.

Alguns cristãos gostam de estar perto de coisas que são proibidas. Vivem se perguntando “até onde posso ir sem pecar?” Esta não é a pergunta correta. Deveríamos nos perguntar “como devo viver para estar bem longe do pecado?”

Deveríamos rejeitar tudo o que não agrada a Deus. Programas de televisão, músicas, conversas, comidas, enfim, o cristão que morará no céu é inimigo daquilo que Deus é inimigo.

Honra os que temem ao Senhor

Essa característica diz respeito a como o cristão encara as homenagens que presta a outras pessoas. O texto nos diz que nós podemos prestar homenagens. Porém, também nos é apresentado quem merece nossas homenagens.

O cristão genuíno honra aos verdadeiros seguidores de Deus. Dá mais importância à verdadeira piedade que à linhagem e à posição.

Bajular pessoas por causa de sua riqueza ou por causa de algum benefício que possa receber não é uma ação do cidadão do céu. A honra deve ser dada àqueles que temem a Deus, esse é o verdadeiro critério para as homenagens do cristão.

Mantêm a palavra mesmo prejudicado

Pode-se ter absoluta confiança no que o cidadão do céu prometeu. Ele sempre cumpre sua palavra, mesmo que sua promessa o faça ter prejuízo, ele sempre cumpre-a. Ele sempre é fiel em seus negócios, cumpre os horários combinados.

Este cristão tem a consciência de que “os cálculos de cada negócio, os pormenores de cada transação passam pelo exame de auditores invisíveis, agentes dAquele que nunca transige com a injustiça, nem abona o mal, nem passa por alto o erro” (Educação, 144).

Não empresta visando lucro


A décima característica diz respeito a não exploração dos pobres. O cidadão do céu não se aproveita de pessoas em condições piores que a dele para tirar proveito financeiro.

Isso se aplica também na hora de comprar e vender. Não se deve aproveitar-se da situação de desespero das pessoas para lucrar com isso. Os negócios precisam ser feitos com justiça nos preços e nos lucros.

Não aceita suborno

A última característica tem relação com a honestidade. Em um mundo onde a desonestidade tem virado “virtude” dos espertos, estamos precisando de mais cidadãos do céu que são honestos na hora de fazer uma prova, na hora de fechar um negócio, na hora de vender seus produtos.

Outro aspecto importante deste ponto é que o cidadão do céu faz o que é certo mesmo quando alguém lhe oferece vantagens para que ele faça o que é errado.

Poderíamos resumir estes onze pontos com uma citação muito significativa: “A maior necessidade do mundo é a de homens - homens que se não comprem nem se vendam; homens que no íntimo da alma sejam verdadeiros e honestos; homens que não temam chamar o pecado pelo seu nome exato; homens, cuja consciência seja tão fiel ao dever como a bússola o é ao pólo; homens que permaneçam firmes pelo que é reto, ainda que caiam os céus”. (Educação, 57)


A Fonte das características


O salmo termina de uma forma muito significativa: “Quem desse modo procede não será abalado”(v.5)

A pessoa em cujo caráter se mostra as características enumeradas nos versos 2-5 é digna de ser hóspede de Deus. Como está colocada sobre uma base segura, não será abalada. Mas qual é essa base segura. Como o cristão pode “não ser abalado”?

Mateus 7:24-25 nos diz quem é este cristão que não será abalado: “Todo aquele, pois, que ouve estas minhas palavras e as põe em prática, será comparado a um homem prudente, que edificou a casa sobre a rocha. E desceu a chuva, correram as torrentes, sopraram os ventos, e bateram com ímpeto contra aquela casa; contudo não caiu, porque estava fundada sobre a rocha”.

Somente quando nos firmamos na Rocha, ou seja, em Cristo, é que podemos não ser abalados. Todas estas características do cidadão do céu somente são possíveis de existirem em uma pessoa se ela estiver firmada na rocha da salvação. Só Jesus conseguiu cumprir tudo perfeitamente e quando falhamos é nos méritos dEle que confiamos para continuarmos a caminhada. Confiados em Seus méritos é que viveremos aqui como cidadãos do céu e finalmente entraremos nas mansões celestiais.

quinta-feira, 30 de junho de 2011


Vinícius Mendes de Oliveira
Professor de Língua Portuguesa no IAENE
Mestrando em Ciências Sociais na UFRB
Formando em Teologia no IAENE


A DOUTRINA DA MORTE



INTRODUÇÃO

O estado do homem na morte é um assunto muito controvertido em nossos dias. Compreender esse assunto é de vital importância devido ao fato de que envolve a natureza do homem e o plano de Deus para salvá-lo do pecado. È por isso que o inimigo de Deus tem trabalhado muito para que haja confusão a respeito desse ponto e que em seu primeiro engano para o ser humano, levou nossos primeiros pais a pensarem que não morreriam, como tem ensinado o espiritismo.

Portanto, esse texto aborda esse tema a partir da perspectiva bíblico-antropológica e da análise de dois textos bíblicos usados erroneamente para refutar a correta doutrina bíblica a respeito do estado do homem na morte.

ANTROPOLOGIA BÍBLICA

Esse é um tema antropológico. Logo, precisamos recorrer, para iniciarmos o assunto, à criação do homem e a forma como Deus define a pergunta geradora da antropologia: “O que é o homem?” Gênesis 2:7 diz: “E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou em seus narizes o fôlego da vida, e o homem foi feito alma vivente.”

De acordo com essa simples e clara definição o homem não possui uma alma. O homem é uma alma vivente. Do ponto de vista bíblico, a vida humana é uma composição de dois elementos: fôlego de vida e pó da terra. Observe que no texto de Genesis 2:7 a integralidade do ser humano é definida como alma vivente, ou seja, a alma não é uma entidade que está no homem, mas é o próprio homem. O texto é claro com respeito a isso. Há ratificações neotestamentárias desse pensamento mosaico em I Coríntios 15:45: “o primeiro homem Adão, foi feito em alma vivente...” E Apocalipse 16:3:” E o segundo anjo derramou a sua salva no mar, que se tornou em sangue como de um morto, e morreu no mar toda alma vivente.”

É interessante observar a relação que o Gênesis faz entre o tipo de vida que há no homem e a que existe nos animais: “Expirou toda a carne que se movia sobre a terra, tanto de ave como de gado e de fera, e de todo réptil que se roja sobre a terra, e todo homem, tudo o que tinha fôlego de espírito de vida em seus narizes, tudo o que havia no seco morreu.” Gênesis 7: 21-22.

O texto deixa claro que os animais possuem o mesmo fôlego de vida que os homens possuem. Assim, fica difícil pensar que os animais possuem uma alma pensante que sai de seu corpo quando morrem. O sábio Salomão acrescenta: “Porque o que sucede aos filhos dos homens, isso também sucede aos animais; a mesma coisa lhe sucede; como morre um, assim morre o outro, todos têm o mesmo fôlego; e a vantagem dos homens sobre os animais não é nenhuma, porque todos são vaidade. Todos vão para o mesmo lugar, todos são pó, e ao pó tornarão.” Eclesiates 3:19-20

O texto acima ainda iguala o lugar para onde vão os mortos de forma tácita: pó da terra, porque todos são pó, tanto homens quanto animais. Veja que o texto não dá nenhuma margem para considerarmos outro lugar para onde vão os mortos senão o pó da terra.

Eclesiastes 12:7, falando sobre a morte diz: “e o pó volte a terra, como era, e o espírito volte a Deus que o deu.” O ponto de vista antropológico de Salomão (inspirado) é de que o homem é uma composição de pó (corpo) e espírito (hebraico ruaj e traduzido pela LXX como pneuma). Assim o termo ruaj e seu correlato grego pneuma equivalem a fôlego de vida. A analogia das Escrituras deixa claro que a fórmula antropológica de Salomão é a mesma que aparece em Gênesis 2:7.

Com respeito à incapacidade cognitiva e volitiva do estado do homem na morte, diz Eclesiastes 9:5-6 “Porque os vivos sabem que hão de morrer, mas os mortos não sabem coisa nenhuma, nem tampouco terão eles recompensa, porque a sua memória jaz no esquecimento. Amor, ódio e inveja para eles já pereceram; para sempre não têm eles parte em coisa alguma do que se faz debaixo do sol.” Assim, não é possível uma formulação doutrinária bíblica que derive uma interpretação de um estado de consciência do homem após a morte.

É importante mencionar ainda que a compreensão de que a alma humana é imortal contradiz frontalmente a doutrina da ressurreição.

No Éden, o engano da serpente girou em torno da mortalidade X imortalidade da alma. Enquanto Deus havia dito que o casal original não devia comer do fruto, pois a consequência seria a morte (Gn. 3:3), Satanás, contradizendo a Deus disse “Não morrereis”(Gn. 3:4). O primeiro engano satânico foi levar o homem à compreensão mentirosa da imortalidade. A frase “É certo que não morrereis” tem ecoado hoje através do espiritismo, falsas doutrinas bíblicas, filmes, novelas etc.

Com esse ensino quer Satanás levar o homem a viver irresponsavelmente pois, segundo seu engano, sempre haverá uma chance, mesmo após a morte do corpo. Isso contradiz a Bíblia em Hebreus 9:27, que diz: “E, assim como aos homens está ordenado morreram uma só vez, vindo, depois disto, o juízo.”

A certeza de um juízo após a morte evidencia a necessidade de levar-nos a sério as coisas de Deus enquanto estamos vivos, pois a morte não nos reserva outra chance. É por isso que a Bíblia sempre apela para uma decisão para hoje (Hb. 4:7). Por outro lado, o juízo determinará de que maneira a eternidade se revelará para cada ser humano. É por isso que a Bíblia ensina que há duas ressurreições (João 5:28-29; Apoc. 20:1-6). A primeira para a vida eterna e a segunda para a morte eterna. O desejo de Deus é de que todos tenham parte na primeira ressurreição.

ANÁLISE DE I PEDRO 3: 13-20 E LUCAS 23:43

I PEDRO 3: 13-20

Com respeito, a I Pedro 3 : 18-20 a explicação bíblica é clara. No entanto, é preciso considerar o contexto em que esse texto aparece. A perícope inicia-se no verso 13, a partir de onde Pedro está instruindo os crentes a permanecerem firmes na fé diante da perseguição daqueles que não crêem na fé evangélica. O apóstolo recomenda a santificação e preparo para responder a respeito da esperança que os cristãos possuem. Pedro afirma, então, que é melhor sofrer pela verdade do que praticar o mal.

Com base nesse contexto, o apóstolo usa exemplo de Cristo, que morreu por justos e injustos. Pedro explica que a morte de Cristo lhe subtraiu temporariamente seu corpo humano, mas não lhe tirou a vida espiritual que Ele possui desde a eternidade. Foi no uso dessa vida (vida espiritual e não em Seu corpo humano) que Cristo pregou, através do ministério de Noé, aos antidiluvianos, que rejeitaram a oferta de salvação, zombando do profeta. A pregação de Noé resultou na salvação de sua família apenas, a qual os livrou do dilúvio, o que para Pedro simboliza o batismo, no qual os que ouvem e praticam a voz de Deus são salvos.

A dificuldade aparente desse texto reside no uso do termo “vivificado no espírito”(v.18) e à expressão “espíritos em prisão (v.19). A expressão “vivificado no espírito” está em oposição a “morto, sim, na carne”. O que Pedro quer ensinar aqui é que Cristo, durante a encarnação, viveu em carne humana, mas que, a despeito dessa condição humana, Ele possui vida espiritual. E foi no uso dessa vida espiritual que Ele pregou, nos dias da pregação histórica de Noé, através de Noé, aos antidiluvianos, chamados aqui de “espíritos em prisão”. Uma exegese honesta do texto, com base na analogia das Escrituras, não permite a inferência de que essa pregação foi após a morte de Cristo, até porque, segundo Hebreus 9:27, os homens morrem e estão sujeitos ao juízo, não havendo mais possibilidade de se mudar seu destino. Essa verdade bíblica torna sem propósito uma suposta pregação de Cristo a seres que morreram sem salvação. Se por acaso for tomada a teoria falsa de Cristo foi pregar, em Sua morte, aos anjos caídos, o problema persistirá pois Judas 6 diz que esses anjos estão sob trevas espirituais, com seus casos decididos aguardando o dia do juízo.

A expressão “espíritos em prisão” está fazendo uma clara referência aos antidiluvianos que viviam durante a pregação de Noé. A Bíblia, no Novo testamento, usa muitas vezes o termo “espírito” para se referir a pessoas vivas (I Cor,16:18; Gl. 6:18). Com respeito a essa expressão associada à prisão, a explicação é a de que o pecado (natureza pecaminosa) é uma prisão para o ser humano sem Cristo (Rm 7:7-25).

Assim, o resumo do ensino de Pedro nessa perícope (I Pedro 3: 13-22) é de que os crentes devem permanecer na fé e defendê-la com amor, mesmo que isso resulte em desprezo e perseguição. O caso de Cristo, pregando aos antidiluvianos é tomado como exemplo, pois mesmo estes não aceitando Sua pregação (apenas oito pessoas foram salvas) e Ele sendo morto em Sua encarnação, isso não lhe tirou a vida espiritual que Ele possuía desde a eternidade, a qual foi plenamente recuperada por Ele em Sua ressurreição. O que Pedro quer ensinar que essa vida espiritual, através da ressurreição, é oferecida a todos os que permanecem na Palavra de Deus.

LUCAS 23: 43

“E Jesus respondeu: em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso.”

A explicação dessa passagem passa pelos seguintes seguimentos: 1- contextual e 2- linguístico

CONTEXTUAL

Em Suas palavras de despedida aos apóstolos no Cenáculo, vinte quatro horas antes de dizer essas palavras ao ladrão, Jesus disse: “E quando eu for e vos preparar lugar, voltarei e vos receberei para mim mesmo, para que onde eu estou, estejais vós também.” João 14:3. Essas palavras indicam claramente que o paraíso, para onde os salvos vão, só pode ser acessado quando Jesus voltar. Isso torna incoerente a suposta promessa de Jesus de que o ladrão estaria naquele mesmo dia, com Ele, no paraíso. Da boca de Cristo nunca saiu e nunca sairá incoerência.

Três dias após a promessa ao ladrão, Jesus diz a Maria Madalena: “Não me detenhas; porque ainda não subi para meu Pai...” João 20:17. Haveria uma grave contradição contextual se Jesus de fato tivesse prometido ao ladrão que estaria com Ele naquele dia no paraiso, pois nem Ele mesmo tinha ascendido ao céu. Entendendo que na Bíblia não há contradição, fica claro que o ladrão não poderia estar com Jesus, naquele dia, no paraíso.



LINGUÍSTICO

É essencial saber que a versão grega original do texto de Lucas 23:43 não possui nem sinais de pontuação tampouco o conectivo que aparece nas versões modernas. Assim no texto original grego de Lucas não aparece a conjunção subordinativa oti (que). Seu acréscimo nas versões atuais decorre da influência que a doutrina da imortalidade da alma exerceu sobre os tradutores modernos da Bíblia.

Dessa forma, o texto deveria ser lido corretamente assim: “Em verdade te digo hoje estarás comigo no paraíso.” O advérbio hoje (grego semeron) nesse texto é usado para modificar o verbo digo e não o verbo estarás.

Em Marcos 14:30, aparece o advérbio semeron (hoje) antecedido pela comjunção oti (que): Em verdade te digo que hoje, nesta noite, antes que duas vezes cante o galo, tu me negarás três vezes.”

No texto de Marcos, vemos Jesus enfatizando que a negação de Pedro ocorreria naquela mesma noite, como de fato aconteceu. Portanto, o uso de semeron (hoje) antecedido de oti (que) aparece corretamente no original grego. Mas o mesmo não ocorre em Lucas 23: 43, pois Jesus não desejava, neste texto, enfatizar uma noção presente da ida ao paraíso com a palavra hoje (semeron), mas relacionar o termo hoje ao verbo digo com o propósito fortalecer o valor do que ia dizer.

Infelizmente para, literalmente, colocar palavras na boca de Jesus, forçando-O a dizer o que não pretendia, os tradutores modernos da Bíblia acrescentaram a palavra que ao texto de Lucas para que essa passagem pudesse ser base para uma doutrina não bíblica.

CONCLUSÃO

Embora a doutrina da morte seja controvertida em nossos dias, um exame criterioso do ensino das Escrituras sobre o tema deixa clara a noção de que o ser humano é uma entidade holística, composta por corpo (pó da terra) e espírito (fôlego de vida).. Logo, o homem não possui uma alma, mas é uma alma. Uma análise criteriosa, embasada em uma exegese séria, de qualquer texto bíblico, inclusive os que parecem mais complexos revelam a doutrina de que o homem é mortal, e que o juízo de Deus decidirá o destino de todos os homens. Está diante de todas as pessoas escolher apenas dois caminhos: vida eterna ou morte eterna. Não há uma estrada alternativa. A mentira Satânica, desde o Éden, foi fazer pensar que o homem poderia ser eterno como Deus. Mas só o Senhor tem esse dom e deseja compartilhar com todos aqueles que aceitam e praticam toda a palavra que procede da boca de Deus (Mateus 4:4).