sexta-feira, 2 de setembro de 2011


O sono que enfraqueceu um homem

Felippe Amorim




Não sei se com você acontece o mesmo que se passa comigo. Procuro acordar cedo todos os dias para ter alguns momentos de intimidade com Deus. Quando ouço o despertador logo levanto para desligá-lo, mas todos os dias me vem uma tentação de voltar para a cama e dormir um pouco mais. Quando cedo a esta tentação sempre acordo atrasado para sair para o trabalho.

Quando este “fenômeno” acontece minha comunhão naquele dia fica comprometida, porque o dia cheio de atividades dificulta ter um momento a sós com Deus. O Senhor espera que nós o busquemos pela manhã. A vida do salmista é um exemplo para nós: “Pela manhã ouves a minha voz, ó Senhor; pela manhã te apresento a minha oração, e vigio” (Sl 5:3). Nas horas tranquilas da manhã podemos nos alimentar com o sólido alimento vindo dos céus.

Pedro: Fraqueza frente ao pecado


A Bíblia nos apresenta uma história de derrota frente ao pecado que nos ajuda a tirarmos algumas lições importantes. Pedro não conseguiu ter forças quando foi tentado durante o julgamento de Cristo.

Jesus estava sendo humilhado em seus últimos momentos do ministério terrestre. Enquanto isso Pedro o observava de longe (Lc. 22:54). Pedro agiu como alguns cristãos modernos. Não têm coragem de abandonar a fé definitivamente, mas segue Jesus de longe. Na prática são pessoas que frequentam os cultos na igreja toda semana, mas no trabalho, na escola, na faculdade se comportam como se nunca conhecessem a Jesus. Aliás, essas pessoas não precisam falar que não conhecem a Jesus, suas ações “gritam” essa informação para o mundo.

As pessoas que estavam próximas a Pedro rapidamente o identificaram como um daqueles que andavam com Cristo. A convivência com o Senhor, imperceptivelmente, transformou aquele Pedro impetuoso em alguém que falava de forma parecida com Deus. É assim que acontece conosco, quando convivemos com Jesus, através da Bíblia e da oração, nos parecemos cada dia mais com Ele.

Naquele momento, ao ser confrontado pelas pessoas, Pedro fez tudo o que podia para negar que andou com Cristo. Cometeu um tremendo pecado. Negou veementemente três vezes a Jesus. “Virando-se o Senhor, olhou para Pedro; e Pedro lembrou-se da palavra do Senhor, como lhe havia dito: Hoje, antes que o galo cante, três vezes me negarás. E, havendo saído, chorou amargamente” (Lc 22: 61,62).

A causa da fraqueza


Sempre ouvimos que aqueles que vivem com Jesus são fortes contra a tentação. Mas quando olhamos para a experiência do apóstolo Pedro, inevitavelmente vem uma pergunta: como alguém que andava com Jesus, ouvia seus ensinamentos pôde cometer um pecado tão grande? O que houve de errado com Pedro?

Encontramos a resposta em Mateus 26:40: “Voltando para os discípulos, achou-os dormindo; e disse a Pedro: Assim nem uma hora pudestes vigiar comigo?”.

Pedro havia sido convidado por Jesus para ir ao Jardim do Getsêmani. Era um momento de muita angústia para o Senhor e de definição para o destino eterno do planeta. Naquele dia Jesus estava sofrendo a forte tentação de desistir do plano da salvação. Caso isso acontecesse todos nós estaríamos eternamente perdidos. A angústia era tamanha que Jesus suou sangue e, quase esgotado fisicamente, cambaleou em direção ao Seu lugar de oração. Levou alguns dos seus discípulos, dentre eles Pedro.

A união de Cristo com o Pai O deu forças para dar continuidade à nossa redenção: “Então [Jesus] toma a decisão definitiva: salvará o homem a qualquer custo. Ele deixou as cortes celestes onde tudo era pureza, felicidade e glória para salvar a única ovelha que se perdera, o único dentre os mundos criados que caíra em pecado e não abandonaria Seu propósito. Sua prece agora transpira apenas submissão: "Meu Pai, se não é possível passar de Mim este cálice sem que Eu o beba, faça-Se a Tua vontade." Mat. 26:42.” (Vida e Ensinos, 105)

A atitude dos discípulos naquele momento foi bem diferente da atitude de seu Mestre. Quero colocar o foco em Pedro. Jesus o havia advertido para orar, pois enfrentaria momentos difíceis. Mas ao invés de obedecer ao conselho de Cristo ele, vencido pelo cansaço, foi dormir. Enquanto deveria vigiar e orar Pedro estava dormindo, este foi o grande erro de Pedro. É verdade que eles estavam cansados, precisavam dormir. Mas dormir, naquele momento, não era a prioridade. Mesmo assim, Pedro deu prioridade ao sono e deixou a comunhão em segundo plano.

Aquela decisão teve uma consequência imediata: na hora da prova, faltou força. “Fora por dormir quando Jesus lhe recomendara vigiar e orar, que Pedro preparara o caminho para seu grande pecado. Todos os discípulos, dormindo na hora crítica, sofreram grande dano. Cristo sabia a cruel prova por que eles haviam de passar. Sabia como Satanás havia de agir para lhes paralisar os sentidos, a fim de se acharem desapercebidos para a prova. Fora por isso que lhes dera aviso. Houvessem aquelas horas no horto sido passadas em vigília e oração, e Pedro não teria ficado dependente de suas débeis forças. Não teria negado a seu Senhor” (Desejado de Todas as Nações, 714).

Uma hora a menos de sono não teria feito nenhuma diferença na vida física de Pedro. Mas uma hora a menos de oração, fez toda a diferença, para o mal, na vida espiritual dele.

Nossa decisão: força ou fraqueza?

A experiência de Pedro deve nos levar a profundas reflexões. A Bíblia diz “Sede sóbrios, vigiai. O vosso adversário, o Diabo, anda em derredor, rugindo como leão, e procurando a quem possa tragar;” (I Pe. 5:8). Todos os dias o inimigo de Deus, sabendo que seu destino eterno já está definido, tenta nos arrastar para o seu lado. Ele sabe que não pode vencer Jesus, então tenta atingir o Senhor derrotando os Seus amados filhos.

Costumo dizer que Satanás não tem uma fábrica de tentações. Ele tem uma manufatura de tentações, ou seja, elas saem personalizadas. Ele ataca cada um em seu ponto fraco. Por isso, devemos estar alerta a cada momento, do contrário seremos derrotados pelo inimigo.

Não existe outra forma de obtermos forças contra as tentações. Somente a ligação com o céu nos fortalece. A vida devocional de Jesus é um exemplo para nós. Ellen White diz: “Vede o Filho de Deus curvado em adoração a Seu Pai! Conquanto seja o Filho de Deus, robustece Sua fé por meio da prece, e mediante a comunhão com o Céu traz a Si mesmo força para resistir ao mal e ministrar às necessidades dos homens”(Atos dos Apóstolos, 56).

Mesmo diante de um dia muito atarefado, Jesus Cristo não negligenciava a comunhão. “O dia todo labutava Ele, ensinando o ignorante, curando o enfermo, dando vista ao cego, alimentando a multidão; e na vigília da noite, ou cedo de manhã, saía para o santuário das montanhas, em busca de comunhão com Seu Pai. Passava por vezes a noite inteira a orar e meditar, voltando ao raiar do dia ao Seu trabalho entre o povo”. (Desejado de Todas as Nações, 260)

Se Jesus, o próprio Deus, precisava passar momentos em oração para aprofundar sua comunhão com o Pai, quanto mais nós pecadores. Somos convidados a passar tempo com Deus. Ellen White aconselha: Far-nos-ia bem passar diariamente uma hora a refletir sobre a vida de Jesus. Deveremos tomá-la ponto por ponto, e deixar que a imaginação se apodere de cada cena, especialmente as finais. Ao meditar assim em Seu grande sacrifício por nós, nossa confiança nEle será mais constante, nosso amor vivificado, e seremos mais profundamente imbuídos de Seu espírito. Se queremos ser salvos afinal, teremos de aprender ao pé da cruz a lição de arrependimento e humilhação. (Desejado de Todas as Nações, 83)

Alguns cristãos cometem literalmente o mesmo erro de Pedro. Preferem passar uma hora a mais na cama a levantar-se e passar tempo em comunhão com Deus. Isso é um tremendo prejuízo espiritual. Cristo mais uma vez dá o exemplo. “O alvorecer encontrava-O muitas vezes em algum lugar retirado, meditando, examinando as Escrituras, ou em oração. Com cânticos saudava a luz da manhã. Com hinos de gratidão alegrava Suas horas de labor, e levava a alegria celeste ao cansado e ao abatido” (Ciência do Bom Viver, 52)

Algumas pessoas negligenciam a sua comunhão por causa de outras “horas de sono”. Passam horas na frente do aparelho de televisão, mas não dedicam tempo à leitura da Bíblia. Outros passam a noite inteira na internet, mas acham muito tempo passar trinta minutos em oração. Passam horas assistindo partidas desportivas, mas se o culto no sábado passa um pouco do tempo ficam impacientes e reclamando.

Não podemos perder a consciência de que estamos no meio do Grande Conflito. As forças do bem e do mal estão ininterruptamente brigando e o motivo dessa disputa é o domínio da mente humana. No conflito cósmico o vencedor da guerra já está definido, Deus já venceu. Mas em nossa vida a batalha ainda não está definida. Nem Deus nem Satanás têm autoridade de definir isso por nós. Nós decidimos. O tempo que passamos em comunhão com o Criador é que definirá de que lado estamos nesta batalha.
Quanto tempo você passou em oração hoje? Nesta última semana, quantas vezes você acordou um pouco mais cedo para passar uma hora em comunhão com Cristo? Se suas respostas a estas perguntas não são muito satisfatórias, então peça a Deus perdão e forças. Deus é o maior interessado em comungar conosco, mas os mais beneficiados somos nós, pois são nestes momentos que adquirimos forças para vencermos as batalhas do cotidiano. Reserve a primeira hora da próxima manhã para sua comunhão pessoal e nunca mais abandone este hábito.





terça-feira, 30 de agosto de 2011

Retrato de um Pastor
(texto publicado na Revista Ministério de Set-Out / 2011)


Felippe Amorim


Rogo, pois, aos presbíteros que há entre vós, eu, presbítero com eles, e testemunha dos sofrimentos de Cristo, e ainda co-participante da glória que há de ser revelada: Pastoreai o rebanho de Deus que há entre vós, não por constrangimento, mas espontaneamente, como Deus quer; nem por sórdida ganância, mas de boa vontade; nem como dominadores dos que vos foram confiados, antes, tornando-vos modelos do rebanho. Ora, logo que o Supremo Pastor se manifestar, recebereis a imarcescível coroa da glória. (I Pedro 5: 1-4)

Introdução

Na Bíblia podemos encontrar exemplos de diversas pessoas que dedicaram sua vida ao ministério pastoral. Timóteo, Paulo, Jesus – o Supremo Pastor, dentre outros. O apóstolo Pedro recebeu sua ordenação ao ministério do próprio Jesus quando conversava com Ele às margens do mar da Galileia: “pastoreai as minhas ovelhas” (João 21:16).

Ao escrever sua primeira carta, Pedro dirige conselhos espirituais para diversas classes da igreja. Os pastores, líderes da igreja, não foram esquecidos pelo apóstolo. No capítulo 5:1-4 ele se dirige especificamente aos pastores. Nesses breves e profundos versículos, Pedro deixou estabelecidos a identidade, o trabalho e a recompensa do pastor. Palavras às quais todos aqueles que almejam ou exercem o ministério devem estar muito atentos.


A identidade do pastor



No verso 1, Pedro apresenta-se aos líderes aos quais escreve. Em sua apresentação podemos claramente observar as credenciais com as quais um pastor deve se identificar. No início de sua apresentação o apóstolo usa a expressão “presbítero com eles”(v.1). Pedro se mostra igual a todos os outros líderes para os quais escreve.

Uma característica que deve fazer parte das credenciais de um pastor é a humildade. O pastor não deve achar-se superior aos outros pastores, muito menos aos membros da igreja. Com tristeza ouvi o lamento de um membro de uma igreja que recebeu uma severa repreensão de seu pastor por tê-lo chamado de “irmão”. Se os pastores não são também “irmãos”, o que são finalmente?

Pedro continua se apresentando. A expressão que ele usa agora é “testemunha dos sofrimentos de Cristo” (v.1). Ninguém melhor que ele poderia usar esta expressão. Pedro esteve bem perto de Jesus na maioria dos momentos de sofrimento do Salvador na terra. Mas esta frase deve levar-nos a refletir em nossa vida. O pastor deve ser uma testemunha de Jesus. Seus olhos devem estar em todos os momentos de sua vida fixos no Mestre. Testemunha no sentido de quem fala a respeito, mas, também no sentido de quem conhece.

Não temos o privilégio que Pedro teve de contemplar a Jesus pessoalmente. Mas podemos contemplá-lo pela fé através das páginas das Escrituras Sagradas. O estudo da Bíblia deve ser a ação mais frequente da vida pastoral. Ellen White comenta: “Fato lamentável é que o progresso da causa seja prejudicado pela falta de obreiros instruídos. Muitos carecem de requisitos morais e intelectuais. Eles não exercitam a mente, não cavam em busca dos tesouros ocultos. Visto que apenas tocam a superfície, adquirem unicamente o conhecimento que à superfície se encontra” (Obreiros Evangélicos, 93). O pastor é uma testemunha por conhecer profundamente seu Mestre.

As palavras introdutórias de Pedro continuam. Ele se auto-denomina “co-participante da glória que há de ser revelada”. Percebe-se em suas palavras uma firme esperança no glorioso futuro prometido por Jesus. Além de participar da glória, o apóstolo entende que é co-participante do sofrimento de cristo: “Porque para isso fostes chamados, porquanto também Cristo padeceu por vós, deixando-vos exemplo, para que sigais as suas pisadas.”(I Pe. 2:21). Isso também fica claro em I Pedro 4:13 onde lemos: “mas regozijai-vos por serdes participantes das aflições de Cristo; para que também na revelação da sua glória vos regozijeis e exulteis”. A vida pastoral não é feita apenas de momentos de felicidade. As aflições certamente farão parte da jornada de um líder, pois o líder maior, Jesus Cristo, passou por muitas aflições. O prêmio final deve ser a grande motivação do ministro.

O trabalho do pastor

Após apresentar as credenciais espirituais do ministro, Pedro começa a expor seus conselhos. O primeiro deles é: “Pastoreai o rebanho”(v.2). Este mesmo conselho já havia sido dado por Paulo (Atos 20: 28) e por Jesus(João 21:16). Quando nos voltamos para a figura do pastor cuidando de suas ovelhas no campo, entendemos o conselho. Pastorear significa alimentar e cuidar do rebanho.

O pastor alimenta sua igreja quando sobe ao púlpito com uma mensagem retirada da Bíblia. O sermão deve ser guiado pelo conselho paulino: “prega a palavra”(II Tim. 4:2). Histórias engraçadas ou comoventes podem entreter, mas só a palavra de Deus alimenta.

O cuidado do pastor é feito mais eficazmente de forma individual. É no contato do pastor com a ovelha que são detectadas as feridas e as debilidades da ovelha, e assim o pastor pode exercer seu cuidado de forma mais efetiva. A visita pastoral à casa do membro é um excelente momento para que isso aconteça. Todo o cuidado com os membros da igreja é pouco, pois somos sub-pastores cuidando das ovelhas do Supremo Pastor (João 10: 14 e 21: 15)

Pedro passa para um próximo tópico de seus conselhos sobre o trabalho pastoral. Ele fala que o trabalho deve ser “não por força, mas espontaneamente”(v.2). A alegria deve permear a vida ministerial. Fazer o trabalho que Cristo fazia deve ser motivo de prazer no trabalho. Aliás, se o trabalho não for espontâneo, com alegria, não será aceito, pois o único serviço que Deus aceita é aquele feito com alegria (2 Cor. 9:7).

A lista de recomendações continua. O final do verso dois nos diz que o pastor não deve trabalhar por ganância. O dinheiro não deve estar entre as motivações para o trabalho. Deus provê tudo aquilo que o pastor precisa, para que ele trabalhe motivado pela salvação de almas.

Parece que Pedro deixou para arrematar os conselhos com uma das mais importantes facetas do ministério pastoral. “Não por dominação, mas sendo modelos do rebanho”(v.3).

O trabalho do pastor não deve ser exercido a partir de um autoritarismo quase militar, o ministro não “manda” na igreja. Ele é servo de Deus, designado para cuidar da igreja. A autoridade do pastor é moral e espiritual, e por isso Pedro termina seus conselhos falando que o ministro deve ser um exemplo de cristão. São abundantes os texto sagrados que falam que o líder deve ser modelo (Tito 1:7, 1 Tes. 1: 7; 2 Tes. 3: 9; 1 Tim. 4: 12; Tito 2: 7).

A mesa do pastor deve ser exemplo para os membros, assim como a roupa, as palavras, as reações, as músicas, os relacionamentos. O pr. Paulo entendia muito bem isso quando disse: “Sede meus imitadores, como também eu o sou de Cristo”(1 Cor. 11:1).

Ellen White escrevendo sobre as características de um ministro estabeleceu 7 Requisitos essenciais para a vida do pastor:

1 – Simpatia: Necessitamos mais da simpatia natural de Cristo; não somente simpatia pelos que se nos apresentam irrepreensíveis, mas pelas pobres almas sofredoras, em luta, que são muitas vezes achadas em falta, pecando e se arrependendo, sendo tentadas e vencidas de desânimo. (Obreiro Evangélicos, 140)

2 – Integridade: Necessitam-se neste tempo homens de coragem provada e firme integridade, homens que não temam erguer a voz na defesa do direito. (Obreiro Evangélicos, 141)

3 – União com Cristo: Uma ligação vital com o Sumo Pastor, há de fazer do subpastor um representante vivo de Cristo, uma verdadeira luz para o mundo. (Obreiro Evangélicos, 142)

4 – Humildade: Os que possuem mais profunda experiência nas coisas de Deus, são os que mais se afastam do orgulho e da presunção. (Obreiro Evangélicos, 142)

5 – Fervor: O meditar somente não satisfará a necessidade do mundo. Religião não deve ser em nossa vida uma influência subjetiva. Temos de ser cristãos bem alerta, enérgicos e ardorosos, cheios do desejo de comunicar aos outros a verdade. (Obreiro Evangélicos, 143)

6 – Coerência: Não importa quão zelosamente seja advogada a verdade, se a vida diária não testemunhar de seu poder santificador, as palavras faladas de nada aproveitarão. Uma conduta incoerente endurece o coração e estreita o espírito do obreiro, colocando também pedras de tropeço no caminho daqueles por quem ele trabalha. (Obreiro Evangélicos, 144)

7 – A vida diária: O pastor deve achar-se livre de toda desnecessária perplexidade temporal, a fim de se poder entregar inteiramente a sua santa vocação. Cumpre-lhe orar muito, e sujeitar-se sob a disciplina de Deus, para que sua vida revele os frutos do verdadeiro domínio de si mesmo. Sua linguagem precisa ser correta; nada de frases de gíria, nem de palavras vulgares devem-lhe sair dos lábios. Seu vestuário deve estar em harmonia com o caráter da obra que está fazendo. Esforcem-se os pastores e professores por atingir a norma estabelecida nas Escrituras. (Obreiro Evangélicos, 14)

Pesa sobre os ombros do ministro uma grande responsabilidade. Por isso a comunhão com Cristo deve ser muito almejada.

A recompensa do pastor


Diante de tanta responsabilidade, seria no mínimo estranho se Jesus não estabelecesse um pagamento para os ministros. Não me refiro simplesmente ao salário do qual é digno o trabalhador (I Tim. 5:18). Me refiro a um prêmio maior.

I Pedro 5:4 diz: “Ora, logo que o Supremo Pastor se manifestar, recebereis a imarcescível coroa da glória”. A frase é afirmativa. Logo que Jesus voltar, Ele garante: “recebereis”. Há uma recompensa guardada para todos aqueles que forem fiéis e certamente os pastores estão incluídos (Mat. 5: 12; 2 Cor. 4: 17; 2 Tim. 4: 8). Todos os pastores que foram fiéis em seu trabalho um dia receberão a coroa das mãos do Supremo Pastor. E para este grupo ainda há uma recompensa especial: ver aqueles que Jesus colocou sob sua responsabilidade também recebendo a coroa da vida das mãos do Bom Pastor, nosso Senhor Jesus Cristo.

Todos os pastores devem trabalhar no presente com o seu coração no futuro. Naquele glorioso dia, todas as angústias, todos os desafios, a vida abnegada, muitas vezes, sangue, suor e lágrimas serão recompensados. Todos seremos ovelhas do Grande Pastor e nunca mais sofremos os efeitos do mal. Somente felicidade, para sempre.





segunda-feira, 15 de agosto de 2011


Missão Possível
(publicado no site Advir.com: click aqui )

Felippe Amorim

E este evangelho do reino será pregado no mundo inteiro, em testemunho a todas as nações, e então virá o fim. Mateus 24:14



Recentemente o Brasil foi impactado pelo exemplo de fidelidade de uma jovem Adventista do Sétimo dia chamada Wasthi. Ela recusou a vaga em um Programa de televisão que poderia render para ela um bom emprego, porque queria se manter fiel a Deus observando o quarto mandamento de Sua lei, ou seja, santificando o sábado.

A entrevista na qual ela explicou seus princípios religiosos foi amplamente divulgada pela internet e certamente milhões de pessoas escutaram que existe um criador, um dia de guarda verdadeiro e uma igreja que preza pela verdade bíblica. Certamente foi uma grande contribuição à pregação do evangelho. Esse fato suscita uma reflexão séria.

Jesus deixou registrado na Sua palavra uma série de sinais que precederiam o Seu glorioso retorno a esta terra. Um estudo atento do capítulo 24 de Mateus nos apresenta sinais naturais, políticos, sociais, religiosos que facilmente identificamos em nossos dias.

O último grande sinal da volta de Jesus também está registrado no capítulo 24 de Mateus, é a pregação do Evangelho em todo o mundo. Este é o grande evento que precede o maior espetáculo já presenciado pelo universo.

Quando observamos o mundo em que vivemos podemos nos perguntar como o evangelho será pregado em todo o mundo. Hoje, mesmo com tantas facilidades tecnológicas, ainda enfrentamos grandes barreiras para a pregação do Evangelho. Países como a China e a Índia que detêm cerca de 1/3 da população mundial tem uma presença cristã muito pequena e se falarmos da presença Adventista, o número é ainda menor.

Mesmo aqui no Brasil a situação é desafiadora. Em São Paulo, por exemplo, a população é de aproximadamente 18,8 milhões de habitantes e quase 70 mil adventistas.

“No restante do mundo o desafio não é diferente, vejamos: Em Tóquio e adjacências vivem 35,6 milhões de pessoas e apenas 2.860 são adventistas. Em Nova Iork, são 19 milhões e 37.897 adventistas. Na Cidade do México, são 23,5 milhões de habitantes para 53.093 adventistas. Em Mumbai, na Índia, são 18,9 milhões e cerca de 10 mil adventistas. Se formos à China, um dos desafios do mundo atual, vamos encontrar Xangai com 14,9 milhões de habitantes para 6.274 membros, e em Beijing, 11,1 milhões de habitantes para 3300 adventistas. A mesma realidade pode ser vista em Buenos Aires, com 12,7 milhões de habitantes para 22.978 adventistas. No Cairo, Egito, com 11,8 milhões de habitantes, vivem 289 adventistas. Em Manila, nas Filipinas, são 11,1 milhões de habitantes e 30.775 adventistas. Moscou na Rússia, tem 10,4 milhões de habitantes e 3.500 são adventistas”.

Quando nos deparamos com este quadro, corremos o risco de ficarmos desanimados, pensando que será impossível pregarmos o evangelho em todo o mundo para que a volta de Jesus seja uma realidade o mais rápido possível.

Quando temos questões tão importantes como esta para responder, precisamos ir a mais confiável fonte de informações: A Bíblia. Nela encontramos relatos que nos dão o caminho para a solução deste nosso aparente empasse.

Noé e o Dilúvio

Começaremos analisando o projeto evangelístico que Deus designou Noé para realizar. O mundo antediluviano havia chegado no limite da paciência de Deus. O supremo criador resolveu então destruir o mundo, mas, graças a sua infinita misericórdia, quis salvar o maior número de pessoas e por isso deu uma mensagem a Noé e este deveria fazer uma série evangelística concomitante à construção da arca.

Por cento e vinte anos Noé pregou todos os dias a mesma mensagem, a mensagem presente para aquela época: o mundo seria destruído e as pessoas deveriam entrar na arca para se salvarem. Por certo, a maior série evangelística da história. No final de 120 anos apenas 8 pessoas foram salvas. Será que era a intenção de Deus condenar a maior parte das pessoas? Certamente não, mas Deus não poderia salvar aqueles que não aceitaram a mensagem. Como diz Ellen White: “O Redentor do mundo tinha muitos ouvintes, mas poucos seguidores. Noé pregou ao povo cento e vinte anos antes do dilúvio e, contudo, bem poucos souberam dar valor a esse precioso tempo de graça. Exceto Noé e sua família, ninguém mais foi contado entre os crentes, nem entrou na arca. De todos os habitantes vivos da Terra, somente oito almas aceitaram a mensagem; mas aquela mensagem condenou o mundo. A luz foi dada para que cressem, a rejeição da luz valeu-lhes a ruína. Nossa mensagem para o mundo será um cheiro de vida para todos quantos a aceitarem, e de condenação para todos os que a rejeitarem”. (Testemunhos Seletos v.3, 190)

A história de Noé nos dá a nossa primeira conclusão acerca da pregação de evangelho a todo o mundo. Devemos tentar alcançar o maior número de pessoas possível, mas para Deus a qualidade é mais importante que a quantidade. Se pudermos unir quantidade com qualidade seria o ideal, mas, segundo a história bíblica, se tivermos que optar por uma das duas devemos sempre ficar com a qualidade dos conversos.

ELIAS e o Monte Carmelo

Analisemos outra história. Elias foi um fiel servo de Deus. Em uma ocasião do seu ministério ele se deparou com um casal diabólico, Acabe e Jezabel. Este casal real havia feito o povo de Israel se distanciar de Deus e adorarem deuses falsos da fenícia.

A missão de Elias era repreender o povo em nome de Deus. O profeta do Deus verdadeiro deveria levar a mensagem de juízo ao rei e, sob risco de perder sua própria vida, entrou no palácio real e anunciou três anos e meio de seca na região. A palavra profética foi cumprida e quanto mais o tempo passava, mais a vida de Elias corria risco, pois Acabe e Jezabel queriam a todo custo a cabeça de Elias.

Passado o tempo determinado por Deus, Elias marcou um encontro entre ele e os inimigos de Deus no monte Carmelo. O profeta de Deus fez uma pergunta aos que estavam ali, pergunta esta que ecoa até nossos dias: E Elias se chegou a todo o povo, e disse: Até quando coxeareis entre dois pensamentos? Se o Senhor é Deus, segui-o; mas se Baal, segui-o. O povo, porém, não lhe respondeu nada. (1 Reis 18:21)

Esta é uma questão que precisa ser pensada seriamente por todos os cristãos. A pergunta de Elias não oferece a opção do meio termo, era preciso uma posição firme por um dos lados – ou Deus ou baal. Podemos tirar outra lição. Durante toda a história do movimento profético Adventista do Sétimo dia, uma clara identidade nos diferenciou de outras denominações. Necessitamos preservá-la. Não podemos ficar servindo a dois senhores, ou melhor, a duas “teologias”, uma bíblica e outra contextual. A chamada ética circunstancial não pode ser aplicada na pregação do evangelho. A posição dos cristãos adventistas deve ser firme de tal forma que a identidade desta igreja seja mantida de acordo com a vontade de Deus expressa em Seus textos inspirados.

Após os improdutivos momentos de invocação dos profetas de baal recheados de muito barulho, Elias orou a Deus, sem barulho, sem gritaria, sem agitação, Elias apenas orou a Deus e o criador honrou a fidelidade do seu servo. A Bíblia registra assim aquele momento: Então caiu fogo do Senhor, e consumiu o holocausto, a lenha, as pedras, e o pó, e ainda lambeu a água que estava no rego. Quando o povo viu isto, prostraram-se todos com o rosto em terra e disseram: O senhor é Deus! O Senhor é Deus! (1 Reis 18: 38,39)

Ellen White descreve aquele momento: “Com impressionante distinção o grito ressoa sobre o monte e ecoa pela planície. Afinal Israel está desperto, esclarecido, penitente. O povo vê por fim quão grandemente havia desonrado a Deus. O caráter do culto de Baal, em contraste com a sensata adoração requerida pelo verdadeiro Deus, está plenamente revelado. O povo reconhece a justiça e misericórdia de Deus em haver retido o orvalho e a chuva até que tivessem sido levados a confessar o Seu nome. Agora estão prontos a admitir que o Deus de Elias está acima de qualquer ídolo”. (Patriarcas e Profetas. 153)

A vida fiel de Elias fez com que o evangelho fosse rapidamente espalhado por toda a região. Embora houvesse outros fiéis escondidos nas cavernas, naquela ocasião o testemunho de um homem fiel fez com que a mensagem presente para aquela época fosse pregada para “todo o povo” segundo a bíblia.

Sadraque, Mesaque e Abdenego

Analisemos a história registrada no capítulo 3 do livro de Daniel. Os três amigos do profeta, Sadraque, Mesaque e Abedenego receberam a ordem da adorar a imagem que o rei Nabucodonosor havia construido.

“A idéia de estabelecer um império e uma dinastia que perdurassem para sempre, apelou fortemente ao poderoso monarca cujas armas as nações da terra tinham sido incapazes de resistir. Com o entusiasmo nascido da ilimitada ambição e orgulho personalístico, ele tomou conselho com seus sábios quanto à maneira de levar avante o projeto. Esquecendo as assinaladas providências relacionadas com o sonho da grande imagem; esquecendo também que o Deus de Israel, por intermédio de Seu servo Daniel, tinha-lhe esclarecido o significado da imagem, e que em conexão com esta interpretação os grandes homens do reino tinham sido salvos de morte ignominiosa; esquecendo tudo, exceto o seu desejo de estabelecer o seu próprio poder e supremacia, o rei e seus conselheiros de Estado decidiram que todos os meios possíveis seriam utilizados para exaltar Babilônia como suprema, e digna de submissão universal”. (Profetas e Reis. 505)

Existia uma mensagem que deveria ser espalhada por todo o mundo: Somente o Deus de Israel era verdadeiro. Esta era a mensagem presente naquela ocasião. O desafio era muito grande, pois aparentemente tudo conspirava contra a mensagem de Deus.

O rei Nabucodonosor tentou obrigar os jovens fiéis hebreus a adorarem a imagem de ouro, usando como instrumento de coerção, a fornalha ardente. Sadraque, Mesaque e Abedenego foram fiéis sem pensar nas consequências: Responderam Sadraque, Mesaque e Abednego, e disseram ao rei: Ó Nabucodonozor, não necessitamos de te responder sobre este negócio. Eis que o nosso Deus a quem nós servimos pode nos livrar da fornalha de fogo ardente; e ele nos livrará da tua mão, ó rei. Mas se não, fica sabendo, ó rei, que não serviremos a teus deuses nem adoraremos a estátua de ouro que levantaste. (Daniel 3:16-18)

O rei portanto os jogou na fornalha e naquele momento Jesus apareceu no meio da fornalha e os livrou da morte.

Os versículos 28 e 29 do capítulo 3 de Daniel falam algo sobre o qual nós deveríamos refletir bastante: “Falou Nabucodonozor, e disse: Bendito seja o Deus de Sadraque, Mesaque e Abednego, o qual enviou o seu anjo e livrou os seus servos, que confiaram nele e frustraram a ordem do rei, escolhendo antes entregar os seus corpos, do que servir ou adorar a deus algum, senão o seu Deus. Por mim, pois, é feito um decreto, que todo o povo, nação e língua que proferir blasfêmia contra o Deus de Sadraque, Mesaque e Abednego, seja despedaçado, e as suas casas sejam feitas um monturo; porquanto não há outro deus que possa livrar desta maneira”. (Daniel 3: 28,29)

É impressionante este relato. Todo o império babilônico, que abarcava quase todo o mundo conhecido da época, recebeu a mensagem do evangelho em um só dia.

O testemunho de três jovens fiéis foi o suficiente para que a mensagem fosse pregada em todo o mundo rapidamente. Sem mídia eletrônica, sem grandes meios de comunicação em um dia a mensagem foi pregada de forma espetacular.

DANIEL

Ainda no livro de Daniel temos outro relato que pode responder nossa pergunta inicial. Em Daniel no capítulo 6 encontramos a famosa passagem da Daniel na cova dos leões.

A fidelidade de Daniel e o prestígio que ele ganhou junto ao rei Dario da Pérsia, fez surgir inveja nos seus colegas de trabalho que incentivaram o rei a fazer uma lei que obrigava a todos orarem somente a ele mesmo. Daniel que seguia o princípio bíblico de agradar a Deus e não aos homens, continuou fazendo suas orações com a janela aberta em direção a Jerusalém.

A pena para o desobediente seria a morte na cova dos leões. Mesmo relutante, o rei Dario cumpriu sua palavra e jogou Daniel na cova dos leões. O anjo do senhor protegeu o profeta fechando a boca dos leões.

Novamente a vida fiel de um servo de Deus faz um grande trabalho missionário, como vemos na bíblia: “Então o rei Dario escreveu a todos os povos, nações e línguas que moram em toda a terra: Paz vos seja multiplicada. Com isto faço um decreto, pelo qual em todo o domínio do meu reino os homens tremam e temam perante o Deus de Daniel; porque ele é o Deus vivo, e permanece para sempre; e o seu reino nunca será destruído; o seu domínio durará até o fim. Ele livra e salva, e opera sinais e maravilhas no céu e na terra; foi ele quem livrou Daniel do poder dos leões”. (Daniel 6:25-27)

A mensagem presente para a época foi pregada em todo o reino da Medo-Pérsia em um só dia. Este é um grande exemplo de como podemos pregar a verdade de Deus em todo mundo. A vida de um fiel, Daniel, fez com que se espalhasse a mensagem de Deus em todo o mundo conhecido.

PAULO

No novo testamento podemos encontrar outro exemplo de pregação do evangelho em todo mundo.

Em colossenses 1:23 Paulo diz: “se é que permaneceis na fé, fundados e firmes, não vos deixando apartar da esperança do evangelho que ouvistes, e que foi pregado a toda criatura que há debaixo do céu, e do qual eu, Paulo, fui constituído ministro”.

Um pequeno grupo de fiéis seguidores de Jesus foi o suficiente para pregar o evangelho em todo o mundo conhecido como lemos no texto acima. A vida deles foi uma pregação não verbal que convenceu multidões a seguir a Jesus.

Os exemplos bíblicos que relatamos nas linhas acima nos mostram que a fidelidade de um cristão pode revolucionar o mundo.

Imagine que o decreto dominical saiu e o mundo inteiro está se adaptando a esta lei que supostamente trará a paz mundial. De repente surge um grupo de pessoas que são fiéis à bíblia e, portanto, guardam o sábado, o verdadeiro dia do Senhor.

Um fiel adventista do 7º dia é preso e mesmo sob ameaça de perder sua própria vida ele não abre mão da verdade bíblica. Os jornais farão entrevistas para conhecer quem é este fiel adventista e farão reportagens sobre a Igreja Adventista e escreverão artigos sobre as doutrinas adventistas. As universidade farão debates sobre o sábado e em pouquíssimo tempo o evangelho será conhecido em todo o mundo.

O Exemplo de Wasthi mostra que a parábola que contamos acima não é algo difícil de acontecer. Como falamos, milhares de pessoas hoje sabem da mensagem do sábado por causa do exemplo de uma jovem fiel. Certamente ela não é perfeita. Nenhum dos personagens bíblicos que citamos acima o era. Mas quando o ser humano decide colocar-se nas mãos de Deus, o Supremo Pai o faz fiel.

Um fiel é tudo o que Deus precisa, apenas um fiel e o evangelho pode ser pregado em todo o mundo.

Cada cristão Adventista do sétimo dia precisa buscar a Jesus de tal forma que quando chegar o momento certo Deus trabalhe através da sua fidelidade e termine a pregação do evangelho em todo o mundo. Após a pregação em todo o mundo Jesus voltará e nos levará para junto dele e passaremos a eternidade sem a presença do pecado e com a presença de Jesus.

Texto baseado no sermão do Pr. Joaquim Azevedo

Bibliografia

Revista Adventista. Nº 1218. novembro de 09. Ano 104.

WHITE, Ellen G. Testemunhos Seletos. Volume 3. 6ª Edição. Casa Publicadora

Brasileira. Tatuí-SP,

WHITE, Ellen G. Patriarcas e Profetas. Casa Publicadora Brasileira, Tatuí-SP, 2007

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Na contramão do mundo
(Texto publicado na Revista Adventista de Agosto / 2011)
Felippe Amorim


Introdução


Fiquei curioso para saber quais as lutas que os jovens cristãos têm enfrentado nesses tempos em que vivemos, então resolvi fazer uma pesquisa rápida sem muito rigor científico entre alguns alunos de uma escola de Ensino Médio. Passei um questionário simples com duas perguntas. A primeira foi: Em quais áreas você tem maior dificuldade de ser fiel a Deus? A segunda pergunta foi: Para você, qual é o maior desafio de um jovem cristão hoje?

As respostas foram muito interessantes. Para a primeira pergunta 64% dos pesquisados responderam que era ouvir somente músicas cristãs, 58% disseram que têm muita dificuldade em ler a Bíblia e orar diariamente. 21% indicaram problemas com a Internet, 26% responderam que têm dificuldade em sempre falar a verdade. Algumas áreas como sexualidade e frequência aos cultos também foram indicadas, dentre outras.

Para a segunda pergunta, tivemos respostas muito significativas também. Permanecer puro, se desligar das coisas mundanas e seguir os dez mandamentos foram algumas das respostas que obtivemos.

Sem dúvida, ser cristão no mundo contemporâneo é um grande desafio e ser um jovem cristão neste contexto é mais desafiador ainda.

Sempre ouvimos que o cristão precisa andar na contramão do mundo. Vamos pensar um pouco sobre o que significa estar na contramão. Estar na contramão não é confortável, é mais fácil ir para onde todos estão indo. A contramão é um lugar perigoso com grandes possibilidades de se machucar. Não é popular estar na contramão, certamente críticas serão ouvidas. Pode haver colisões frontais. Quando andamos na contramão certamente nos encontraremos com aqueles que vêm no sentido contrário. Finalmente é necessária muita coragem para estar nesta posição. Será que Deus realmente quer que andemos na contramão do mundo e soframos tantos constrangimentos?

A contramão: um imperativo bíblico


Em Romanos 12:2 lemos: “E não vos conformeis a este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus.” Não se conformar é não ter a mesma forma, em outras palavras é não estar na mesma direção. Deus requer de cada cristão que ande na contramão deste mundo.

A Bíblia nos apresenta vários exemplos de pessoas que escolheram estar na contramão deste mundo. Gostaria de destacar um deles.

O profeta Daniel foi levado de sua terra natal para a Babilônia quando ainda era jovem, provavelmente aos 18 anos de idade. Aquele lugar era o maior centro cultural e político de sua época. Em Daniel 1:5 lemos: “E o rei lhes determinou a porção diária das iguarias do rei, e do vinho que ele bebia, e que assim fossem alimentados por três anos; para que no fim destes pudessem estar diante do rei.” Há uma palavra que precisamos destacar deste verso, “determinou”. A “mão” do mundo para Daniel naquele momento era comer daquilo que o rei havia posto à mesa. A Bíblia registra qual foi a atitude do jovem profeta: “Resolveu Daniel, firmemente, não contaminar-se com as finas iguarias do rei, nem com o vinho que ele bebia; então pediu ao chefe dos eunucos que lhe permitisse não contaminar-se”(Dn 1:8). Daniel resolveu andar na contramão do mundo.

Se analisarmos este verso perceberemos que não foi uma decisão fácil. Dentre todos os escravos, Daniel estava numa posição privilegiada, pois foi escolhido para estudar na “Universidade da Babilônia”, a melhor do mundo. Ao decidir não estar na “mão do mundo” ele estava arriscando perder a vaga na universidade, perder status social elevado e um bom emprego. A despeito de tudo isso, o profeta dá dois passos importantes que devem ser dados por todo cristão jovem ou adulto. Ele “decide” não se contaminar, mas apenas decidir não é o suficiente, logo após ele vai para a ação, pedir ao chefe dos eunucos. Decisão e ação devem marcar a vida dos cristãos que andam na contramão do mundo.

Deus nunca desampara seus filhos. A atitude de Daniel de andar na contramão do mundo foi recompensada pelo Senhor. Em Daniel 1:15 lemos que por escolher uma dieta diferente dos demais, em dez dias pode perceber-se que ele e seus amigos eram mais robustos que os outros. Depois de três anos de estudos eles foram achados dez vezes mais inteligentes que qualquer outro estudante daquele local (Dn 1:20).

Andar na contramão – A Prática

Aquele episódio pelo qual Daniel e seus três amigos passaram estava diretamente ligado a um importante aspecto do cristianismo, a alimentação. Mas dele podemos retirar um principio útil para qualquer aspecto da vida cristã. Todo cristão precisa andar no caminho de Deus e este é a contramão do mundo.

Na prática funciona assim:

A Mão do mundo diz: sexo livre. A contramão diz: sexo apenas no casamento.

A Mão do mundo diz: pornografia. A contramão diz: pureza da mente.

A Mão do mundo diz: perca tempo com futilidades. A contramão diz: Dedique tempo à Bíblia e oração.

A Mão do mundo diz: desrespeite os pais. A contramão diz: honra teu pai e tua mãe.

A Mão do mundo diz: cole na prova. A contramão diz: tire nota baixa, mas não cole.

A mão do mundo sempre leva à perdição, somente a contramão do mundo pode nos levar ao céu.

Qual o segredo?

É possível que nesse momento alguns estejam pensando: Sei que preciso estar na contramão do mundo, mas não tenho forças, como conseguirei?

Ellen White escreveu sobre Daniel: “O profeta Daniel tinha um caráter notável. Ele foi brilhante exemplo daquilo que os homens podem chegar a ser quando unidos com o Deus da sabedoria” (Santificação, 18). O Salmo 119: 9-11 diz: “Como purificará o jovem o seu caminho? Observando-o de acordo com a tua palavra. De todo o meu coração tenho te buscado; não me deixes desviar dos teus mandamentos. Escondi a tua palavra no meu coração, para não pecar contra ti”.

Não existe fórmula mágica para a fidelidade. Apenas a união com Jesus pode nos dar forças para resistirmos às ondas deste mundo. Somente Cristo pode nos indicar o caminho. “Quando te desviares para a direita ou para a esquerda, os teus ouvidos ouvirão atrás de ti uma palavra, dizendo: este é o caminho, andai por ele” (Is. 30:21). Necessitamos com urgência ter mais intimidade com Deus para ouvirmos sua voz e só então podermos andar na contramão do mundo.



quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Aplica-te à Leitura




até a minha chegada, aplica-te à leitura, à exortação, e ao ensino. (I Tm 4:13)

“Uma mente que se abre para novas ideias nunca mais retorna para o tamanho original” (Albert Einstein). A frase anterior nos passa uma mensagem importante. Nós seríamos muito beneficiados se constantemente entrássemos em contato com novas ideias.

Podemos usar diversos meios para termos acesso às novas ideias, mas, sem dúvida, a prática da leitura é um dos meios mais eficazes. Desenvolver o hábito da leitura é uma recomendação dos educadores para todos os seres humanos que querem se desenvolver intelectualmente.

Um Conselho Divino



Deus, o criador dos seres humanos, tem a total noção do quanto a leitura é benéfica para as pessoas. Ao inspirar Paulo quando este escrevia a Timóteo, Deus tocou neste assunto.

Na primeira carta que escreveu a Timóteo, no capítulo 4: 6 a 16, Paulo apresenta diversos conselhos a um jovem pastor. Mais especificamente, a partir do versículo 12 são apresentadas mensagens à mocidade.

“Não despreze a tua mocidade” é o conselho geral e depois Paulo detalha como o jovem pode não desprezar sua mocidade. Um dos conselhos é “aplica-te à leitura”. É verdade que Paulo estava se referindo especificamente à leitura do Antigo Testamento e essa, sem dúvida, é a mais importante de todas as leituras, em nosso contexto, a leitura das Escrituras Sagradas. No entanto, o conselho do apóstolo pode ser aplicado a um contexto mais amplo.


Um conselho Específico



Todos os cristãos deveriam ser pessoas que tem intimidade com a leitura, afinal, eles têm sua religião baseada em um livro. Muitas pessoas até desenvolveram um hábito de leitura, mas não o aplicaram ao principal livro: a Bíblia.

Ellen White tem alguns conselhos que demonstram a importância de fazer das Sagradas Escrituras a sua principal leitura.

“A Bíblia é o melhor livro do mundo para comunicar cultura intelectual. Seu estudo ativa a mente, robustece a memória e aguça o intelecto mais do que o estudo de quantas matérias abrange a filosofia humana. Os grandes temas que ela apresenta, a digna simplicidade com que esses temas são tratados, a luz derramada sobre os grandes problemas da vida, comunicam força e vigor ao entendimento”. (Obreiros Evangélicos, 100)

Além dos benefícios espirituais, a leitura da Bíblia traz benefícios para o cotidiano prático. A capacidade intelectual do cristão é desenvolvida proporcionalmente ao seu contato com as palavras que foram inspiradas pela mente onisciente.

Deus continua nos aconselhando através de sua mensageira a respeito dos hábitos de leitura: “Quisera dizer aos jovens: Sede cuidadosos quanto à leitura. Enquanto a mente for dirigida na direção errada por leituras impróprias, impossível vos será tornar a verdade de Deus constante objeto de meditação. Se já houve tempo em que o conhecimento das Escrituras fosse mais importante que em qualquer outro, esse tempo é o atual. Apelo aos jovens e idosos: Tornai a Bíblia vosso guia. Aí encontrareis a verdadeira norma de caráter. (Signs of the Times, 19 de maio de 1887).

Não basta lermos, precisamos selecionar com muito critério aquilo que leremos. Há muita literatura no mercado que se propõe a ser cristã, mas está recheada de conceitos que se opõem ao que a Bíblia apresenta, como o espiritismo por exemplo.

Voltamos a reforçar que nossa principal leitura deve ser as Escrituras Sagradas e é ela quem deve nos instruir a respeito das nossas outras leituras. O próprio Paulo estabeleceu um princípio: “Quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai”(Fp 4:8). Ellen White acrescenta: “A Bíblia é nosso guia na segura vereda que leva à vida eterna. Deus inspirou homens para escrever aquilo que nos apresente a verdade, que seja atraente e que, posto em prática, habilitará o recebedor a obter uma força moral igual à das mentes mais altamente educadas. Ampliar-se-á a mente de todos os que fazem da Palavra de Deus o seu estudo. Muito mais do que qualquer outro estudo, sua influência é de molde a aumentar o poder de compreensão e dotar cada faculdade de novo poder. Leva a mente em contato com amplos, enobrecedores princípios da verdade. Traz todo o Céu em íntimo contato com espíritos humanos, comunicando sabedoria e conhecimento e entendimento”. (Mente Caráter e Personalidade. Vl 1, 98). A Palavra de Deus deve ser nosso crivo para a escolha de nossas leituras.

Ampliando o conselho


Se parássemos a discussão do assunto neste ponto estaríamos desprezando outros aspectos importantes do assunto. O cristão não deve restringir-se à leitura da Bíblia.

O Profeta Daniel e seus três amigos são um bom exemplo de pessoas que tinham um profundo conhecimento bíblico, mas não pararam aí. A Bíblia diz que eles estavam classificados entre os “jovens em quem não houvesse defeito algum, de bela aparência, dotados de sabedoria, inteligência e instrução, e que tivessem capacidade para assistirem no palácio do rei; e que lhes ensinasse as letras e a língua dos caldeus”(Dn 1:4). Mas não somente isso, a Bíblia continua os descrevendo assim: “e em toda matéria de sabedoria e discernimento, a respeito da qual lhes perguntou o rei, este os achou dez vezes mais doutos do que todos os magos e encantadores que havia em todo o seu reino” (Daniel 1:20). Estes jovens hebreus se dedicaram também ao estudo de outros temas além dos bíblicos. Assim como os jovens hebreus cativos na Babilônia, devemos nos dedicar aos estudos da ciência, filosofia e outros assuntos que ampliarão nosso conhecimento geral.

É verdade que a vida moderna é muito cheia de compromissos, mas se nos organizarmos e aproveitarmos os pequenos momentos de folga conseguiremos ler muito mais.

Ellen White aconselha: “do justo emprego do tempo depende nosso êxito no conhecimento e cultura mental. A cultura do intelecto não precisa ser tolhida por pobreza, origem humilde ou circunstâncias desfavoráveis, contanto que se aproveitem os momentos. Alguns momentos aqui e outros ali, que poderiam ser dissipados em conversas inúteis; as horas matutinas tantas vezes desperdiçadas no leito; o tempo gasto em viagens de bonde ou trem; ou em espera na estação; os minutos de espera pelas refeições, de espera pelos que são impontuais - se se tivesse um livro à mão, e estes retalhos de tempo fossem empregados estudando, lendo ou meditando, que não poderia ser conseguido! O propósito resoluto, a aplicação persistente e cautelosa economia de tempo, habilitarão os homens para adquirirem conhecimento e disciplina mental que os qualificarão para quase qualquer posição de influência e utilidade”. (Parábolas de Jesus, 344)

O cristão deve ser um exemplo de pessoa aplicada à leitura e aos estudos. Deus promete que nos ajudará a desenvolvermos a nossa capacidade intelectual. Mas Deus não fará por nós aquilo que nós podemos fazer. A nós cabe a tarefa de aceitarmos o conselho de Paulo, aplicarmo-nos à leitura, e Deus fará a parte dele nos aumentando a capacidade mental. Escolhamos bem aquilo que leremos e nos dediquemos cada vez mais a esta prática tão benéfica.



segunda-feira, 25 de julho de 2011


A Pedagogia das Tempestades

Felippe Amorim

Introdução



Deus tem diversas formas de nos ensinar Suas lições. Ele é um professor por excelência e nós somos seus alunos por extrema necessidade. Nesta relação professor-aluno, nós somos muito beneficiados, pois, na verdade, não sabemos nada e precisamos da sabedoria dAquele que sabe de tudo.

A história relatada em Mateus 14: 22-33 nos mostra um dos métodos de Deus para ensinar os seres humanos. Esta história acontece em três cenários distintos: A praia, o mar e o coração dos discípulos. Meditando nela conseguiremos entender como Deus trabalha a sua pedagogia.

A Praia

Logo em seguida obrigou os seus discípulos a entrar no barco, e passar adiante dele para o outro lado, enquanto ele despedia as multidões. Tendo-as despedido, subiu ao monte para orar à parte. Ao anoitecer, estava ali sozinho. (Mt 14: 22-23)
Jesus tinha acabado de realizar o espetacular milagre da multiplicação dos pães e peixes. Aquele evento tinha acendido a esperança daquelas quase dez mil pessoas de que finalmente o messias libertador político havia chegado. Eles tinham esperança de que se tornariam livres dos romanos, que a miséria acabaria e finalmente Israel se tornaria uma poderosa nação que dominaria as outras.

A multidão aclamava Jesus e esse sentimento também era real no coração dos discípulos. Eles também criam em um messias político. Não compreendiam que o reino de Jesus seria espiritual e não terreno.

Os discípulos queriam coroar Jesus naquele momento, Judas era o mais animado. Ele se imaginava tesoureiro do reino que seria estabelecido. As vantagens terrenas estavam diante dos olhos dos discípulos.

Mas Jesus, com sua infinita sabedoria, sabia que se ele fosse coroado seu ministério chegaria ao final precocemente.

Jesus, então, dá uma ordem aos discípulos, manda-os irem embora para o outro lado do mar. Eles não queriam ir, seus planos eram coroar Jesus rei. Para que os discípulos obedecessem à ordem, o Mestre teve que ser duro com eles. A palavra inspirada diz que Ele os obrigou a ir. Em outras traduções diz que eles foram compelidos. A questão é que para que os discípulos fossem para onde Jesus queria, foi necessário que pela primeira vez Jesus falasse de forma dura com eles.

A recusa de Jesus de coroar-se rei causou grandes dúvidas nos discípulos: “Deveriam ser sempre considerados seguidores de um falso profeta? Não haveria Cristo nunca de afirmar Sua autoridade como rei? Por que não havia Ele, que possuía tal poder, de revelar-Se em Seu verdadeiro caráter e tornar-lhes a eles o caminho menos penoso? Por que não salvara João Batista de uma morte violenta? Assim raciocinavam os discípulos, até que trouxeram sobre si mesmos grande treva espiritual. Perguntavam: Poderia ser Jesus um impostor, como afirmavam os fariseus?” (Desejado de Todas as Nações, 380). A primeira tempestade desta história não aconteceu no mar, aconteceu na cabeça dos discípulos. Eles precisavam aprender no que consistia a obra de Cristo. A cabeça dos discípulos estava em tempestade de pensamento.

Sabendo de tudo o que estava acontecendo, Jesus subiu para o monte para orar. Ele orava pela multidão e orava pelos discípulos. Ambos os grupos precisavam compreender a essência do reino de Deus.

O mar


Entrementes, o barco já estava a muitos estádios da terra, açoitado pelas ondas; porque o vento era contrário. Na quarta vigília da noite, foi Jesus ter com eles, andando sobre o mar. Os discípulos, porém, ao vê-lo andando sobre o mar, assustaram-se e disseram: É um fantasma. E gritaram de medo. Jesus, porém, imediatamente lhes falou, dizendo: Tende ânimo; sou eu; não temais. Respondeu-lhe Pedro: Senhor! se és tu, manda-me ir ter contigo sobre as águas. Disse-lhe ele: Vem. Pedro, descendo do barco, e andando sobre as águas, foi ao encontro de Jesus. Mas, sentindo o vento, teve medo; e, começando a submergir, clamou: Senhor, salva-me. Imediatamente estendeu Jesus a mão, segurou-o, e disse-lhe: Homem de pouca fé, por que duvidaste? E logo que subiram para o barco, o vento cessou (Mt 14: 24-32).

Já estava quase escuro quando os discípulos partiram no barco, eles demoraram a cumprir a ordem de Jesus.

Mesmo indo para o lugar onde Jesus havia mandado, eles não estavam isentos de enfrentarem tempestades, pois, “o vento era contrário”. Na vida também enfrentamos tempestades, mesmo quando seguimos o caminho que Jesus nos indicou, pois, existe um inimigo que sopra um vento contrário. O próprio Jesus disse: “No mundo tereis tribulações; mas tende bom ânimo, eu venci o mundo”(Jo. 16:33). A promessa de Jesus é companhia, não ausência de tribulações.

O vento era contrário não somente no mar, mas também no coração dos discípulos. Jesus sabia disso e queria os ensinar uma preciosa lição.

Então Jesus permitiu que a tempestade chegasse aos discípulos, ela seria seu instrumento pedagógico. O tormentoso mar, paradoxalmente, pôde aquietar a tormenta que rugia no coração deles. Do mesmo modo, às vezes nos encontramos no mar das dificuldades, nessas ocasiões Jesus usa a tormenta para nos fazer crescer espiritualmente.

Há algo curioso nesta história. A Bíblia diz que somente “na quarta vigília da noite” Jesus foi socorrê-los. Naqueles tempos a noite era dividida em quatro vigílias de três horas cada uma. Portanto, Jesus foi em direção aos discípulos por volta das três horas da manhã. Ele aparentemente demorou. Os discípulos lutaram contra a tempestade durante cerca de oito horas.

Por que Jesus demorou tanto? A primeira coisa que precisamos saber é que Jesus lá de cima do monte velava pelos discípulos, mesmo chegando apenas na quarta vigília Jesus passou a noite toda os observando e os protegendo. Não fosse isso e o barco teria afundado logo no início da tempestade, porém, Jesus queria deixa-los lutando até que eles entendessem que não poderiam vencer sozinhos.

Lá na praia os doze seguidores de Cristo achavam que eram sábios e poderosos. Achavam que poderiam entronizar a Jesus e não concordaram com o Mestre quando os mandou ir embora. O Senhor queria ensiná-los que eles não podiam nada sozinhos. Esta é uma lição que nós também precisamos aprender. Às vezes Jesus nos deixa lutando em nossas tempestades até que compreendamos que não podemos vencer sozinhos.

Depois de uma noite de luta finalmente acabaram as forças deles. A demora de Jesus fez com que eles percebessem o quanto necessitavam do seu Senhor. Quando eles perceberam que não podiam sozinhos, então Jesus veio. Quão bom seria se nós nos rendêssemos a Jesus logo no início de nossas lutas!

Jesus foi encontrá-los andando sobre o mar. A tempestade ainda estava muito intensa, mas Jesus anda sobre e dentro da tempestade. “Tende bom ânimo” e “não temais”. Estas foram as ordens dadas por Jesus enquanto a tempestade ainda estava forte.

Estas mesmas ordens são dadas a nós. Mesmo no meio das aflições não precisamos ter medo. O segredo estava na frase: “SOU EU”. É a presença de Cristo que garante paz em meio à tempestade.

Neste momento da história se destaca a figura do sempre pronto a falar: Pedro. A frase que ele falou pode traduzir-se também assim: "já que és tu, manda-me ir ter contigo sobre as águas". Pedro não tinha dúvida de quem era o que lhes tinha aparecido. Embora inicialmente os discípulos tenham gritado com medo de um fantasma. Logo identificaram Jesus como aquele que caminhava sobre o mar, de outro modo Pedro nunca se teria atrevido a sair do barco para tentar caminhar sobre as ondas encrespadas pelo vento.

Pedro saiu do barco por fé. A fé o sustentou sobre as águas do mar de Galileia. Mas essa fé só foi ativa enquanto ele manteve os olhos fixos em Jesus.

Nunca precisamos temer enquanto mantemos os olhos em Cristo e confiamos em sua graça e poder. Mas quando nos olhamos a nós mesmos, aos que nos rodeiam, e às dificuldades que nos circundam, temos muitas razões de ter medo.

Ellen White descreve assim aquele momento: “Olhando para Jesus, Pedro caminha firmemente; como satisfeito consigo mesmo, porém, volta-se para os companheiros no barco, desviando os olhos do Salvador. O vento ruge. As ondas encapelam-se, alterosas, e interpõem-se exatamente entre ele e o Mestre; e ele teme. Por um momento, Cristo fica-lhe oculto, e sua fé desfalece. Começa a afundar. Mas ao passo que as ondas prenunciam morte, Pedro ergue os olhos para Jesus e brada: "Senhor, salva-me!. Jesus segura imediatamente a estendida mão, dizendo: "Homem de pequena fé, por que duvidaste?”

A tempestade só cessou completamente quando Jesus entrou no barco. Assim também será em nossa vida, apenas quando o Senhor estiver dentro do nosso barco é que teremos as nossas tempestades espirituais acalmadas.

O Coração



Então os que estavam no barco adoraram-no, dizendo: Verdadeiramente tu és Filho de Deus. (Mt 14:33)

O objetivo de Jesus com tudo isso era alcançar o coração dos discípulos. Este é o terceiro cenário desta história.

Somente depois de enfrentar uma tempestade e de quase perderem a vida é que eles finalmente entenderam o que Jesus queria ensiná-los. Foi nesta ocasião quando os discípulos confessaram pela primeira vez que Jesus era o Filho de Deus e o adoraram na forma em que os homens adoram a Deus.

Jesus queria ensiná-los sobre a verdadeira adoração e usou a tempestade como instrumento de ensino.

Quando Deus permite tempestades em nossa vida ele quer nos ensinar algo. Quer nos ensinar dependência, por exemplo, pois,” os que deixam de compreender sua continua dependência de Deus são vencidos pela tentação” (Desejado de Todas as Nações, 264)

Da próxima vez que enfrentarmos as tempestades da vida não devemos mais perguntar “por que?” mas “para que?”. Se estivermos dentro da tempestade neste momento, oremos da seguinte forma: “Senhor, o que queres me ensinar através deste problema”. Nunca devemos nos esquecer de que Jesus está conosco dentro da tempestade nos prometendo: “Não temas, porque eu te remi; chamei-te pelo teu nome, tu és meu. Quando passares pelas águas, eu serei contigo; quando pelos rios, eles não te submergirão; quando passares pelo fogo, não te queimarás, nem a chama arderá em ti. Porque eu sou o Senhor teu Deus, o Santo de Israel, o teu Salvador” (Isa. 43:1-3). Aprendamos com a pedagogia das tempestades.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Vinícius Mendes de Oliveira
Formando em Teologia pelo SALT -IAENE
Professor de Língua portuguesa no IAENE
Mestrando em Ciência Sociais pela UFRB



A GRATIDÃO É A RESPOSTA


“Então, Jesus lhe perguntou: Não eram dez os que foram curados? Onde estão os nove? Não houve, porventura, quem voltasse para dar glória a Deus, senão este estrangeiro? E disse-lhe: Levanta-te e vai; a tua Fe te salvou.” Lucas 17:17-19

A gratidão é a resposta imediata de uma pessoa que reconhece que recebeu a graça de Deus. A graça vem de Deus. Essa é a parte dEle. A gratidão deve brotar como resposta no coração humano. Essa é a nossa parte. No relato da cura dos dez leprosos, Jesus, usando a recorrente fórmula de declaração de salvação, diz ao leproso agradecido: “a tua fé te salvou.” O interessante é que não foi apenas o samaritano que foi curado da lepra, os outros nove também foram, mas apenas ele foi declarado salvo por Jesus. Apenas ele compreendeu o propósito maior por detrás da cura física que havia recebido.

Isso ensina que a graça de Deus é universal, ou seja, Ele a despeja sobre todos, mas só os que demonstram completa gratidão poderão usufruir da salvação. Ensina também que a obediência que Deus deseja que tenhamos é produto da recepção da graça no coração. Se for motivada por qualquer outra coisa, não pode ser recebida por Deus.

O episódio da cura dos dez leprosos evidencia como pode ser produzida no coração uma fé genuinamente grata pelo dom da salvação oferecido a nós. Deus sempre nos atrai, muitas vezes usando nossas necessidades humanas e exercita nossa fé, provando se de fato confiamos em Sua Palavra. A partir disso, Sua expectativa é que compreendamos o presente da salvação sem o qual não poderíamos viver, e devotemos nossa vida de forma irrestrita ao Senhor, através de uma obediência motivada por amor.

A ISCA

Os dez leprosos, pelas leis de higiene, não podiam se aproximar de ninguém. Respeitando essas leis, eles se dirigem a Jesus, à distância, imaginando que Cristo fosse um ser humano como os outros, passível de contaminação. Eles gritam em busca de misericórdia, imaginando, quem sabe, que Cristo pudesse curá-los fisicamente ou amenizar seu sofrimento. A postura deles, no entanto, é bem diferente de um leproso que se aproximou de Jesus o suficiente para ser tocado pelo Senhor. Esse indivíduo reconhecia a Cristo como Messias e exerceu uma fé genuína. Mas os dez leprosos ficaram de longe com medo de contaminar Jesus com sua lepra.

O pecado é exatamente assim, afasta as pessoas de Deus. No lamaçal do pecado, muitos são levados a crer, por Satanás, que não são dignos de se aproximar de Jesus. Assim o inimigo tem vitória. Mas, quando uma alma vacilante, mesmo distante, considerando-se indigna, clama a Jesus, não fica sem resposta do Mestre.

Essa distância de Cristo também pode simbolizar os motivos errados que nos levam a buscar a Jesus. Alguém que se relacione com Cristo apenas por conta das contingências humanas, não conseguirá chegar próximo do salvador para vê-lO de perto, experimentá-lO e vivenciar todas as maravilhas da presença de Cristo. Ficam, à distância, gritando por uma migalha de Sua misericórdia, quando poderiam se aproximar, com fé, reconhecendo que a sua oferta é muito maior do que nós queremos inicialmente. Ficam esperneando pelos desejos de um coração não regenerado, quando o que Cristo pode oferecer é a real necessidade que possuem, mas não conseguem enxergar. Não é esse tipo de relacionamento que Deus deseja ter conosco. Ele quer que nós nos aprofundemos em Sua vida, que O contemplemos bem de perto e sejamos salvos, que prossigamos em conhecê-lO. Mas uma busca baseada apenas nas superficialidades da vida, por mais que sejam coisas importantes e reais (como a lepra daqueles dez, ou as suas dívidas e desilusões amorosas, por exemplo) jamais dará ao ser humano aquilo que Deus deseja muito oferecer: a salvação.


O EXERCÍCIO DA FÉ


Essa busca egoísta, no entanto, não é desconsiderada por Deus. O verso 14 diz que quando Cristo ouviu aqueles gritos, à distância, respondeu, dizendo a eles que podiam se mostrar aos sacerdotes, que atuavam também como uma espécie de ficais da vigilância sanitária, verificando se alguém que se dizia curado, realmente, estava.

O fato é que quando Jesus pediu para aquele grupo ir aos sacerdotes eles ainda eram leprosos. A estratégia de Cristo, com isso, era estimular a fé daqueles homens. O Senhor desejava ensinar que, quando pedimos algo a Deus que está prometido em Sua palavra devemos ter a certeza de Sua resposta. O Senhor não aprecia pessoas duvidosas que vivem em busca de sinais para que possam crer. A Palavra de Cristo deve ser suficiente para nós. A fé vê o invisível, ouve o inaudível e apalpa o intangível. A fé é obedecer a Deus, mesmo que isso pareça estranho. É por isso que aqueles que andam pela fé estão na contramão do mundo. Seria uma situação ridícula para aqueles indivíduos mostrarem-se para os sacerdotes estando ainda leprosos. Mas o texto diz que eles foram e, na ida, foram curados.

Essa situação torna clara nossa necessidade de confiarmos irrestritamente na Palavra de Deus. Todos estamos doentes com a lepra do pecado e, de uma forma ou de outra, muitas vezes clamamos para que Deus nos limpe desses pecados, mas a impressão que temos, às vezes, é a de que não somos ouvidos. Os pecados são recorrentes é parece que nunca vamos vencê-los. As promessas da nova Aliança dão conta de que nós seremos vencedores e que a Lei de Deus estará em nossos corações, produzindo uma obediência completa a Deus. Esse é o tempo em que devemos reclamar insistentemente essas promessas e nos apropriarmos delas. Devemos, a exemplo dos dez leprosos, agir com base nessas promessas. Não podemos duvidar de Deus, pois Ele já proveu todos os meios para nossa redenção: Seu precioso sangue na Cruz e Seu Espírito regenerador.


O VERDADEIRO PRESENTE


Com a cura da lepra, Jesus queria levar os dez leprosos a entender a necessidade que tinham de salvação. Mas apenas um deles, o samaritano, compreendeu isso. Todos os dez haviam sido objeto da graça de Cristo, mas apenas ele se apropriou dela. O detalhe é que a graça de Deus não era o milagre da cura. Isso era apenas a isca para que aquelas mentes concretas pudessem ser encaminhadas para o Reino espiritual de Deus. No entanto, infelizmente, como os nove leprosos, a maioria das pessoas se contenta com as benesses materiais providas pelo evangelho, sem considerar que estas são iscas para atraí-los a um relacionamento íntimo com o Salvador.

Mas um rompeu a barreira do natural e manifestou fé, uma fé que alcançou a graça de Deus. O presente estava nas mãos de Cristo sendo oferecido para todos, mas apenas esse leproso samaritano teve o braço da fé para agarrá-lo. O verso 15 diz que ele voltou. Nem se menciona que ele tenha ido aos sacerdotes, ao que tudo indica quando ele percebeu que a mancha da lepra tinha saído de sua vida, deu meia volta, correu para onde Jesus estava e passou a glorificar a Deus em alta voz.

Esse é o resultado natural de uma vida que se apropria da graça de Cristo: um espetáculo de louvor a Deus. Ninguém cala uma pessoa salva por Jesus. O mundo percebe a diferença. Ele emite altos louvores ao seu Senhor. Ele se prostra, reconhecendo o senhorio de Cristo na vida e agradece.

Esse é a conceito-chave desse texto: gratidão. A gratidão é a resposta natural que alguém emite em relação ao recebimento da graça de Deus. Ser grato é reconhecer que o que foi recebido é imerecido. Com relação ao presente da salvação é entender que, se não fosse por Cristo, estaríamos perdidos, e que Jesus salvou a nossa vida. Então, a gratidão diz: “Deus, eu estou aqui, com tudo o que sou. Não mereço estar aqui, mas o Senhor me salvou, por isso me entrego completamente, sem reservas”. Isso é gratidão. Gratidão não é a hipocrisia das palavras. Gratidão é uma completa obediência a Cristo já que Ele pagou o preço pelo qual nós fomos salvos e, por isso, é o nosso Senhor. Uma pessoa realmente grata pelo presente da salvação que recebeu devotará sua vida a Deus em completa obediência e esta não lhe parecerá pesada. Não ficará questionando as ordens divinas, tentando relativizá-las, mas se subordinará inteiramente a Deus e perguntará ainda o que poderá fazer em resposta a esse amor tão grande e imerecido. Perguntará e responderá como o salmista: “Que darei ao Senhor por todos os Seus benefícios? Tomarei o cálice da salvação e invocarei o nome do Senhor. Cumprirei os meus votos ao Senhor, na presença de todo o Seu povo.”

O detalhe é que esse leproso que expressou gratidão era samaritano. Talvez isso ajude a explicar sua atitude. Os outros nove talvez por serem judeus imaginassem que eram dignos da cura e que a única dificuldade que tinham na vida era lepra, resolvido isso estavam muito bem. Mas o samaritano entendeu que sua necessidade era muito maior do que a cura. Ele precisava de salvação. A atitude dos nove fechou-lhes o céu. A atitude do samaritano fez dele um salvo.

A oferta graciosa de Cristo é para todos, mas apenas aqueles que com fé se aproximam de Deus serão salvos. Muitos se contentam com um relacionamento superficial com Jesus, desejando apenas bênçãos materiais. Entretanto a salvação só pode ser acessada por pessoas que com fé se dirigem a Deus e entregam plenamente sua vida em gratidão irrestrita.